Do UOL
Um grupo de moradores do Complexo do Alemão que protestava contra a
ação dos militares da Força de Pacificação foi reprimido com violência
pelos soldados que estavam de guarda na madrugada desta terça-feira
(6), nas proximidades da estação Itararé do teleférico do Alemão.
Segundo uma moradora da favela da Grota, o Exército impôs toque de
recolher e efetuou disparos de balas de borracha para conter os
manifestantes. Há relatos ainda não confirmados de que o fornecimento
de energia chegou a ser interrompido no local a pedido do Exército.
"Fui visitar uma amiga e tive que dormir na casa dela, não podia
nem chegar na janela. Os soldados estão com raiva e os moradores estão
voltando a ter o mesmo medo que existia na época que os traficantes
estavam aqui", disse ela, que pediu anonimato.
Após ocupação, mulheres do Complexo do Alemão denunciam mais abusos
Habitado por cerca de 200 mil pessoas e ocupado desde novembro de 2010
pelas Forças Armadas, o Complexo do Alemão apresenta uma mudança
significativa quanto a agressão contra mulheres.
O número de notificações de casos de violência doméstica aumentou quase
105% nos primeiros meses deste ano, segundo confirmou ao UOL Notícias o
titular da 22ª Delegacia da Penha, José Pedro Costa da Silva.
O conflito ocorreu no mesmo lugar onde, na noite do domingo (4), um
pelotão de aproximadamente cem soldados interviu de forma truculenta
para mediar um pequeno conflito.
A reportagem do
UOL Notícias tentou entrar em
contato com a chefia do Estado Maior da Força de Pacificação e com o
Comando Militar do Leste, mas não obteve resposta até o momento.
Na segunda-feira (5), a Força de Pacificação já tinha sido alvo de
uma manifestação promovida por mototaxistas do Complexo do Alemão,
possivelmente insatisfeitos com a fiscalização rigorosa.
Pelo menos cinco foram presos e conduzidos para uma base militar
situada na comunidade da Fazendinha, de acordo com informações do
Exército.
Os motoqueiros fizeram várias fogueiras nas proximidades da favela
Nova Brasília a fim de impedir o tráfego entre a estrada do Itararé e a
avenida Itaoca - e o trânsito só foi normalizado após o trabalho do
Corpo de Bombeiros.
Investigação
O Ministério Público Federal (MPF)
abriu inquérito civil para investigar a atuação dos militares envolvidos no conflito com moradores do Complexo do Alemão no domingo (4).
O procedimento será vinculado à apuração de incidente similar que
aconteceu na Vila Cruzeiro, no dia 24 de julho, quando militares usaram
spray de pimenta e balas de borracha contra moradores que estavam em um
bar.
Segundo o MPF, as procuradoras Gisele Porto e Aline Caixeta
estiveram na comunidade para ouvir os responsáveis pela Força de
Pacificação. Elas receberam um relatório do general Cesar Leme Justo e
do coronel Nilson Nunes, mas ainda irão ouvir a estudante Elaine
Moraes, que deu entrada no Hospital Getúlio Vargas com uma bala de
borracha alojada na boca, e outras vítimas do conflito.
No fim do mês passado, a Secretaria de Segurança Pública do Estado
solicitou ao governo federal que mantivesse as tropas até pelo menos
junho de 2012 --anteriormente, a expectativa era de que uma Unidade de
Polícia Pacificadora (UPP) fosse instalada na comunidade entre outubro
e novembro deste ano. O morro foi ocupado pelas forças de segurança em
novembro do ano passado.
O Ministério Público Federal diz que, a partir de questionamentos
da sociedade, promoverá debate no dia 6 de outubro para discutir a
constitucionalidade da atuação do Exército na Segurança Pública. O
debate será na sede da Procuradoria da República no Rio, com presença
de juristas, representantes do Comando Militar do Leste e
representantes da sociedade civil.
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