Do Blog do Rovai
Um grupo de entidades e personalidades acaba de lançar mais um
manifesto propondo um novo pacto pela cultura no governo Dilma. A carta
dialoga com a última crise do ministério que levou ao pedido de
demissão da secretária Marta Porto. O texto é de alto nível. Não
discute nomes e nem picuinhas. Ao contrário, lista os pontos que o MinC
precisa debater e assumir compromissos para sair de uma crise que se
iniciou nos primeiros dias de gestão, quando a ministra mandou tirar a
licença do Creative Commons do site do ministério. O manifesto está
neste
endereço, onde é possível assiná-lo.
Brasília , 3 de setembro de 2011
O povo brasileiro tomou nas urnas a decisão de construir um país rico, soberano e democrático.
A cultura do Brasil, seus produtores e agentes em sua mais rica
diversidade, se engajou desde o começo do governo Lula no projeto de
universalização do conhecimento, do acesso à produção de bens culturais
e na distribuição do poder simbólico, econômico e político. Em outras
palavras: construir agora o Brasil do futuro, apostando no
desenvolvimento e na inclusão, contando com a “inteligência popular
brasileira” e a imaginação dos povos dos Brasis.
Por isso, durante os dois governos Lula, a sociedade civil
organizada, os coletivos e redes, produtores e agentes estabeleceram
uma inédita e saudável relação com o governo no sentido de construir um
projeto de cultura para o Estado Brasileiro. A herança maior das duas
últimas gestões à frente do MinC é a constituição de uma rede imensa e
capilar que vai dos mestres da cultura popular aos hackers.
Durante o governo Lula estas redes não foram apenas atendidas pelas
políticas públicas, senão que tornaram-se os sujeitos do processo,
fazedores de cultura e de país. Tal legado é patrimônio de todos
aqueles que lutaram pelo projeto de nação encabeçado por Dilma Rouseff.
A Crise Estrutural do MinC
Passados 8 meses de governo, segue a crise do MinC, cujo último
episódio foi a saída da Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural,
e as ameaças de novas demissões e desentendimentos.
A sociedade civil organizada, produtores e agentes culturais,
parlamentares, ativistas de dentro e de fora do campo cultural,
entendem que esta é a hora de uma correção de rumo no Ministério da
Cultura.
É necessário uma repactuação com os movimentos culturais que
construíram e deram apoio à política pública de cultura gestada no
governo Lula e sua continuidade, avanço e ampliação no governo que
elegemos. Não podemos mais aceitar que as conquistas e avanços da
sociedade brasileira no campo cultural, chanceladas pela sociedade
civil e pelo Estado e tornadas públicas no Plano Nacional de Cultura
continuem a ser desrespeitadas e ignoradas.
País rico é país com democracia participativa e por isso não podemos
aceitar o rompimento do diálogo construído com os movimentos e agentes
em gestão compartilhada nos 8 anos do governo Lula. Estes mesmos
avanços nos últimos 8 meses do governo Dilma Roussef sofreram
retrocessos ou estão paralisados, diante da crise de legitimidade e
confiança na qual se vê submerso o MinC.
Os movimentos culturais organizados estão buscando há 8 meses a
retomada da experiência de co-gestão e participação da sociedade civil
nos rumos da Cultura.
Todos os esforços estão sendo feitos para essa repactuação, por isso
reivindicamos que as novas mudanças sejam debatidas e consultadas de
forma franca e ampla junto aos movimentos culturais que estiveram
durante esses últimos meses e nestes 3 dias de agosto e inicio de
setembro reunidos em Brasília, em diálogo direto com todas as
Secretarias do Ministério da Cultura (com exceção da Secretaria de
Cidadania e Diversidade Cultural, demissionária).
Destacamos os pontos fundamentais defendidos por diferentes movimentos, que vem sendo debatidos desde a primeira crise do MinC:
- A implementação do Plano Nacional de Cultura aprovado pelo governo Lula;
- A aprovação da PEC 150 e do Procultura como enviados para o Congresso;
- A publicização do texto final da Reforma da Lei dos Direitos
Autorais e seu envio ao Congresso, mantendo-se os avanços propostos
pela sociedade em consulta pública; entre eles a fiscalização de
instituições como o ECAD (Escritório Central de Arrecadação e
Distribuição), e a criação de Instituto ou Agência Reguladora na área
de direitos autorais, estímulo a produção de conteúdos culturais,
educacionais abertos, descriminzalização da cópia e o estímulo ao uso
de licenças flexíveis, como o Creative Commons;
- A defesa do Programa Cultura Viva, a manutenção dos 3 mil Pontos e
Pontões de Cultura e suas ações. O pagamento de todos os Editais,
Renovações dos convênios de Pontos e Pontões, a manutenção e expansão
da Rede dos Pontos de Cultura, a contemplação de novas redes e a
definição de um novo marco legal.
- Retomada do protagonismo nacional e internacional em Cultura Digital, conquistado pelo MinC, no governo Lula.
- Retomada dos programas de Diversidade Cultural, abandonados nesta gestão
- Aprovação da Lei Cultura Viva, Aprovação da Lei dos Mestres e Griôs
- A Revisão da proposta orçamentária para o Minc em avaliação no
Congresso Nacional, que canaliza grande parte das verbas da cultura
para obras e infra-estrutura, inviabilizando as demais ações do
Programa Cultura Viva (rede dos Pontos de Cultura, Ação Cultura
Digital, etc.) de forma desproporcional e assimétrica.
- Defendemos também o maior diálogo do Ministério da Cultura, com
nossa participação, em ações transversais com os demais ministérios,
particularmente com o MEC, Ministério das Comunicações, Ministério da
Ciência e Tecnologia, Ministério do Trabalho e em ações como a do Plano
Nacional de Banda Larga.
O MinC somos nós e nosso compromisso é com o viável e com o possível.
Por tudo isso, solicitamos à Presidenta Dilma Roussef, aos
parlamentares, ativistas, sociedade civil e movimentos culturais e
sociais que juntos possamos estancar as crises sucessivas no Ministério
da Cultura, para repactuarmos o compromisso assumido entre o Estado
brasileiro, os movimentos culturais e a sociedade civil de um projeto
de continuidade, inovação e avanços na cultura brasileira que esteja à
altura do papel que o Brasil assumiu como protagonista e referência na
cena global em termos de políticas culturais inovadoras.
É preciso que nos unamos ao redor de um projeto no qual a cultura
seja convocada de fato a cumprir sua vocação de inventora de futuro,
desenvolvimento, soberania, sustentabilidade, democracia e inclusão
social. É preciso confiança na Cultura Brasileira!
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