Como que me vi num espelho...
Por Patrício Jr
No Plog
Suponhamos que você esteja numa mesa de bar com um grupo de
Intelectuais Potyguares (sim, eles existem, muito embora sejam como as
bruxas: você não deve acreditar neles). Ah, o Intelectual Potyguar!
Esse espécime que todos crêem estar em extinção, mas que se reproduz
pelas vicinais do Beco da Lama com mais ferocidade que o
Artistas Performaticus Natalensis e o
Secretarius de Cultura Municipalis.
Está com eles a missão de transmitir às gerações vindouras o melhor que
encerra seu DNA: o talento para o fuxico, a capacidade para a inércia e
o dom da irrelevância.
— Os prêmios literários só são dados a autores que espelham e
ovacionam o poder dos Governos — suponhamos que um dos Intelectuais
Potyguares acabe de cuspir esta máxima (um Intelectual Potyguar que se
preze não se contenta em emitir opiniões: vociferar verdades universais
incontestáveis é que é da hora).
É preciso que fique claro antes que prossigamos: dizer “o poder dos
Governos” numa mesa de bar é o equivalente a berrar “Parem de falar,
vozes na minha cabeça” em um jantar de noivado. Não faz sentido, mas
serve para chamar a atenção.
Ainda no campo das suposições, partamos do pressuposto de que você
tente contra-argumentar, dizendo que não é bem assim: prêmios
literários, do finado Othoniel Menezes ao eterno Nobel, servem para
fomentar a produção, estimular o consumo de literatura e, independente
das jogadas de bastidores e dos eventuais
lobbies, é sempre bom ganhá-los.
Desista. Não adianta. Um legítimo Intelectual Potyguar não participa
de prêmios literários — não está bem claro se é pela falta de uma obra
relevante ou se é pela preguiça de tirar cópias, encadernar, enviar
pelos Correios. Intelectuais Potyguares sabem que ser intelectual de
verdade dá trabalho. E não me entenda mal: há intelectuais de verdade
no Rio Grande do Norte; cultos e comprometidos; maduros e humildes;
talentosos e empreendedores — e eu só inseri esta afirmação no texto
porque não quero me indispor com os Intelectuais Potyguares que não se
assumem como tal. Os enrustidos são os mais perigosos.
Pra ser Intelectual Potyguar tem que expor opiniões como se
estivesse revelando publicamente uma conspiração global — com
alterações bruscas no volume da voz, olhos injetados, palavras que já
caíram em desuso e, mais importante de tudo, perdigotos.
— O único ganhador do Nobel que merece meu respeito se chama Sartre,
que fez exatamente o que eu faria: recusou o prêmio — diz um dos
Intelectuais Potyguares à sua frente, enquanto gotas da mais pura
saliva neblinam sobre a mesa, notadamente quando ele diz “Sartre”. Os
Intelectuais Potyguares preferem a umidade à humildade.
Este que, suponhamos, acaba de falar é da espécie
sou-tão-inteligente-que-posso-andar-como-um-mendigo. E muito embora
você duvide que alguém quase sem dentes, vestindo camiseta das Eleições
2002 e calça doada pela Cruz Vermelha, tivesse a audácia de recusar um
prêmio que lhe renderia 10 milhões de coroas suecas, você não vai dizer
nada. Você vai se limitar a sorrir sem revelar se é por fascínio ou
escárnio, dar um gole na sua cerveja torcendo para que ela não tenha
sido atingida pelos perdigotos, repassar mentalmente os nomes dos
agraciados pelo Nobel que você consegue lembrar (achando surpreendente
que este Intelectual Potyguar tenha conseguido memorizar todos os
ganhadores) e pensar: mas nem José Saramago, único Nobel de Literatura
da Língua Portuguesa, você respeita?
— Mas nem José Saramago, único Nobel de Literatura da Língua
Portuguesa, você respeita? — suponhamos que você, sem conseguir se
conter, tenha pensado alto.
Neste momento, você conhecerá uma nova faceta do Intelectual
Potyguar. Você não sabia, mas quando está em seu habitat natural (mesa
de plástico de um bar xexelento), o Intelectual Potyguar não aceita que
ninguém — ninguém! NINGUÉM! — discorde dele. Isto inclui você. O
Intelectual Potyguar passa a agir como um leão que mija em círculos
para demarcar seu território. Em vez de urinar, entretanto, ele caga:
— A literatura de Saramago está a serviço dos poderosos — diz
enquanto as têmporas vibram num rompante de ódio comparável apenas a um
chilique de madame em boutique do Plano Palumbo. — Dos poderosos!
José Saramago? O escritor de esquerda?! Aquele que deixou Portugal
só por não concordar com o Governo?!?! O escritor excomungado pela
Igreja por escrever “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”?!?!?! É deste
José Saramago que ele está falando?!?!?!?! Parece loucura, mas você
decide cutucar o cão com frases curtas:
— Acho que você nunca leu Saramago — você diz sem conseguir conter
um brilho maligno no olhar. — Aliás, acho que você nem sabe quem é
Saramago.
“Eu não sei” é uma sentença que não existe no vocabulário do
Intelectual Potyguar. Uma única vez um Intelectual Potyguar disse esta
frase, mas depois descobriram que ele havia nascido em Recife.
— Atualmente, tenho me dedicado a reler “Finnegans Wake” de James
Joyce — responde, gentilmente, o Intelectual Potyguar, esboçando tédio
e autocomiseração para que todos creiam que reler “Finnegans Wake” é
algum tipo de obrigação divina que lhe foi imposta.
Pois é, os Intelectuais Potyguares sempre estão relendo um livro que
ninguém leu. Não importa se nos últimos meses você devorou três Philip
Roth, quatro Paul Auster e nove Hemingway. O Intelectual Potyguar vai
se sentir superior por estar usando seu cultíssimo tempo para reler
“Finnegans Wake”. Você até cogita perguntar o que ele tem lido de mais
atual, mas você sabe que ele acabaria vomitando frases como “A
literatura acabou em Guimarães Rosa” e aí a coisa toda descambaria pra
baixaria.
Suponhamos que você desista de dialogar e reduza-se a um observador
da fauna local. Como um repórter do NatGeo, você presta atenção em cada
gesto dos Intelectuais Potyguares enquanto seus olhos lacrimejam de
piedade.
Você aprende que:
1) Só Intelectuais Potyguares sabem que Lampião nunca colocou os pés
em Mossoró, ficando a 17 quilômetros da cidade durante o famoso cerco.
Preste atenção: 17 quilômetros. Não foram 18, não foram 19, foram 17
quilômetros. Você pensa: “Como ele sabe a distância exata? Lampião deu
um check-in no Foursquare?”
2) Só Intelectuais Potyguares leram mais de 300 livros sobre a
história do Rio Grande do Norte e sempre estarão a espera do momento
certo de esfregar isto na sua cara. Muito embora não confessem,
intimamente alimentam a esperança de serem citados em um desses livros.
Por isso lêem tanto sobre a história do Rio Grande do Norte.
3) Só Intelectuais Potyguares conseguem citar Câmara Cascudo em
qualquer momento da conversa. “Vai viajar neste feriadão?”, alguém
pergunta displicentemente. O Intelectual Potyguar se empertiga na
cadeira, respira fundo, formula sua melhor expressão de desdém e fala
fitando o nada: “Como diria Câmara Cascudo: ‘Vou não, quero não, posso
não’.”
4) Só Intelectuais Potyguares xingam muito no Twitter, disparando
até ameaças de agressão física, só porque algum jovem poeta escreveu
“chanana” ao invés de “xanana” (Intelectuais Potyguares, só de birra,
ignoram que a flor símbolo de Natal é grafada com “ch” em todos os
dicionários). A propósito, só Intelectuais Potyguares não pensam em
vagina quando ouvem a palavra “chanana”.
5) Só Intelectuais Potyguares batizam de Zila & Mamede o casal de pebas conquistado numa rifa.
6) Só Intelectuais Potyguares lêem repetidas vezes um texto que os
critica, numa busca fremente por um verbo mal conjugado ou um erro de
digitação. Em suas cabecinhas transbordantes de meladinha, encontrar
algo assim num texto que os critica desqualificaria seu autor, suas
ideias, seus argumentos, sua mãe, sua esposa, sua sogra. Buscar coisas
assim num texto é uma forma de se afirmar Intelectual Potyguar. Pode
prestar atenção nos comentários mais abaixo para confirmar.
E, por fim, a maior lição: só Intelectuais Potyguares fazem você
sentir o estômago dar voltas em torno de uma dor pontiaguda que
precipita a mais genuína diarréia de escárnio. Você se levanta, dá
boa-noite, pede desculpas por já ter que ir embora. E sai antes que
acabe por expelir em forma pastosa tudo que os Intelectuais Potyguares
vêm excretando, ao longo da vida, dia após dia, em forma de palavras.
Mas tudo isso não passa de suposição, claro.
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