Por Eduardo Guimarães
No Blog da Cidadania
Em primeiro lugar, quero deixar bem claro que levo muito a sério o
que direi neste texto algo longo que até tentei adiar, mas que não pude
postergar diante da questão crucial e grave de que trata. Se você,
leitor habitual desta página, já conseguiu ver qualquer valor nas
análises que aqui são publicadas, sugiro que respire fundo e me conceda
a atenção mais integral que já dispensou a algo que escrevi.
Não farei suspense sobre o assunto. Uma primeira reação declarada da
mídia antipetista (acima de tudo) que sucedeu a divulgação do documento
final do 4º Congresso Nacional do PT na noite de domingo me obriga a
dizer que tal manifestação contém ameaça explícita e intolerável de
tentativa de golpe contra o governo Dilma caso envie ao Congresso
Nacional um projeto de marco regulatório amplo para a Comunicação no
Brasil.
Mas não é só. Pelo tom da ameaça, as retaliações subentendidas
poderão ocorrer até mesmo se, conforme o documento final do Congresso
do PT, o partido realmente propuser às Casas Legislativas da nação um
projeto de lei sobre tema que os barões da mídia não aceitam sequer
discutir, ou seja, que tenham que respeitar regras e, mais do que isso,
desfazerem-se de parte de seus impérios no âmbito de um veto legal à
propriedade cruzada de meios de comunicação.
O veto legal à propriedade cruzada, para simplificar, significaria
que as Organizações Globo, por exemplo, não poderiam mais ter jornal,
revista, rádio, televisão e portal de internet nas mesmas regiões; o
Grupo Folha, não poderia ter jornal e portal de internet do porte da
Folha e do UOL; o Grupo Estado, não mais poderia deter uma grande
rádio, um grande jornal e um grande portal de internet; e a Editora
Abril, teria que escolher, sempre exemplificando, entre suas
publicações impressas e seu portal de internet.
Em países como os Estados Unidos é normal que o Estado obrigue
grupos empresariais a se desfazerem de parte de suas empresas quando
estas ameaçam constituir monopólio ou oligopólio. No Brasil mesmo, isso
também acontece. Mas aqui, à diferença de lá, o Estado impedir
concentração de mercado jamais incluiu a Comunicação, pois esta sempre
foi gerida pela direita que governou este país entre 1964 e 2002, em
sua última investida.
Durante esses mais de quarenta anos, esses impérios de comunicação
se consolidaram e conseguiram se tornar nem um quarto Poder, mas o
primeiro. Adquiriram meios de chantagear a classe política com seus
instrumentos de calar ou dar voz a quem bem entendessem e, por isso,
jamais tiveram seus monopólios e oligopólios contestados.
Quando ameaçam, portanto, mesmo sendo por um de seus tentáculos
menores – mas que serve de amostra do todo que integra –, por conta do
que a história nos mostra me vejo obrigado a levar muito a sério e,
assim, a vir a público dizer que não duvido de que nesse discurso que
abordarei, forjado para repelir a decisão autônoma e constitucional
tomada pelo PT em seu Congresso de propor regulamentação da
comunicação, há uma clara ameaça às instituições brasileiras.
A gravidade desse texto decorre de sua origem. Foi escrito por
alguém que tem servido de voz oficiosa a um dos quatro grandes
tentáculos da imprensa golpista que já produziu um golpe de Estado
neste país e que vive defendendo aqueles que durante vinte anos
subjugaram a nação através dos métodos que todos conhecem.
Reinaldo Azevedo publica, na noite de domingo, um texto furioso
ameaçando claramente o maior partido político do Brasil, uma estrutura
partidária gigantesca com cerca de um milhão de filiados, detentora de
dezenas e dezenas de milhões de votos em todos os níveis eletivos e que
governa o país sob a aprovação efusiva da maioria absoluta e
incontestável dos brasileiros há quase nove anos ininterruptos.
Não preocupam as inversões dos fatos, as meias verdades e as
mentiras inteiras que esse homem escreveu, mas as ameaças que, na
condição de uma célula cerebral da direita midiática que submeteu este
país à ditadura militar, e em consonância com outros fatos que serão
abordados, sugerem que os interesses comerciais, financeiros e
políticos que seriam feridos com uma lei da mídia similar às que vigem
nos países mais desenvolvidos deixariam os que se sentiriam
prejudicados dispostos a tudo para impedir que isso ocorra.
É sempre penoso ler uma simples frase desse homem, dessa caricatura
de si mesmo que ele construiu para fazer jus às recompensas do patrão
pela fúria teleguiada que despeja diariamente em sua página hospedada
no portal da revista Veja na internet. Todavia, não há remédio. Teremos
que mergulhar no esgoto.
Afinal, Azevedo não diz um A sem autorização do patrão e este não
deixa dizer se o que tiver que ser dito não for discutido antes com o
resto desse organismo midiático, militar, empresarial e político que
tem antecedentes bem conhecidos neste país. Quem viu a foto do José
Dirceu
demoníaco
que ilustrou boa parte do noticiário do fim de semana sobre o 4º
Congresso do PT, não tem dúvida disso. Publicaram em uníssono aquela
manipulação vergonhosa.
Reproduzo a seguir, portanto, parágrafo por parágrafo dessa peça
alucinada, tecendo comentários do blog logo após cada um deles. Peço
que tenham paciência até chegarem ao ponto do texto que considero grave
e sobre o qual acredito que o PT deve pedir explicações públicas.
—–
04/09/2011
Os fascistas saem da toca!
Reinaldo Azevedo
É sob pressão que pessoas, partidos e até instituições
revelam a sua real natureza. Os cemitérios tendem a ser iguais nas
ditaduras e nas democracias. A grande diferença se dá mesmo no mundo
dos vivos. O 4º Congresso do PT, que começou ontem e termina hoje, está
prestando um grande serviço ao país e à política. Os petistas revelam
que não aprenderam nada nem esqueceram nada depois de nove anos de
poder. Continuam os autoritários de sempre, decididos a substituir a
sociedade pelo partido, conforme seu projeto original. Quem presta um
pouco de atenção à história das idéias não está surpreso.
A que autoritarismo de petistas esse homem se refere? Lula apanhou
da imprensa a cada dia de seu mandato a partir de 2005 depois de
apanhar de 1989 a 2002, quando era oposição. Mesmo tendo chegado ao
poder, não houve reação a insultos, ridicularizações, desqualificações
de toda sorte. Ele e seu partido são chamados há anos de criminosos
impunemente, sem qualquer comprovação de nada, com base apenas na
retórica dos adversários político-partidários e midiáticos.
O petismo é um descendente do bolchevismo no que
concerne à organização da sociedade, entendendo que a nação deva ser
conduzida por um ente que decide em lugar dos cidadãos, porém adaptado
— e como! — aos tempos modernos. Para o modelo, que ainda está em
construção, pouco importa se os petistas estão ou não oficialmente no
poder: eles sempre estarão por intermédio dos fundos de pensão, dos
sindicatos, do aparelhamento das estatais. O petismo é um fascismo de
esquerda.
O “petismo”, segundo esse indivíduo, é um mal a ser erradicado, uma
organização criminosa. E a quem ele representa, quando diz isso? A ele
mesmo e àqueles que lhe pagam os salários, e mais meia dúzia de barões
da mídia e políticos que vêm perdendo eleição após eleição para “o
petismo”. Provavelmente porque ninguém são, neste país, considera o PT
uma doença, para ser chamado de “petismo” – o sufixo do substantivo
indica anomalia doentia.
No que concerne à ordem econômica, tudo vai muito bem
para os companheiros, até porque têm como seu principal aliado o
capital financeiro, que não quer saber a cor dos gatos desde que eles
cacem ratos. O curioso embate que se dá no Brasil é entre a esquerda
financeira, financista e rentista, com a qual os petistas compuseram, e
a direita assalariada, que trabalha. Chamo de “direita” aqui, para
deixar claro, as pessoas que ainda se ocupam de alguns dos velhos (!) e
bons fundamentos das sociedades liberais: liberdade individual,
igualdade perante a lei, incentivo ao empreendedorismo, estado enxuto,
tudo o que parece hoje fora de moda. Os petistas não querem mexer no
“sistema”. Ao contrário: pretendem reforçá-lo por meio, por exemplo, de
uma reforma política estúpida, que extrema todos os males do modelo
vigente.
De onde ele tirou que a direita é “assalariada” e o PT é “financista
e rentista”? Basta ver os setores que mais votam nos partidos
preferidos e defendidos pelo blogueiro da Veja – que dispensam
apresentações – e os que votam no Partido dos Trabalhadores. A tese
saiu da cachola do cara, portanto. Quem tiver dúvida sobre o assunto,
basta consultar as pesquisas de opinião estratificadas para saber quem
é o eleitorado primordial de quem, apesar de que a imprensa vive
confirmando o que digo de forma a tachar o eleitorado do PT de
“inculto”, “desinformado” e, portanto, “pobre”.
Só uma coisa incomoda o PT: o regime de liberdades
públicas que se respira no país. Isso eles não podem suportar. Então um
partido ganha uma eleição — ou três… ou dez —, e ainda há gente na
imprensa que se atreve a criticá-lo, que não concorda com suas
ilegalidades, que resiste às suas tentações e práticas totalitárias,
que não se submete a seus desejos e Vontades? “Mas a gente não
conquistou nas urnas o direito de fazer o que bem entende?”, eles se
perguntam espantados. E a resposta, evidentemente, é “Não!” Eles
conquistaram nas urnas A OBRIGAÇÃO de seguir as regras do estado de
direito, de se submeter à lei, de nos servir por intermédio de um
mandato, que pode ser revogado numa nova eleição ou mesmo num processo
de impedimento.
Ahá! Impedimento, é? Um impeachment de Dilma, suponho… Sob que
motivo? É uma ameaça. Azevedo propõe impedir Dilma se ela enviar ao
Congresso um projeto de lei que obrigue seu patrão a se desfazer de
parte de seu império, por exemplo. Mas como isso seria feito? Afinal,
se o projeto for enviado seria legal, obviamente. E quem decidiria
sobre ele seria o Congresso. Como propor o impeachment de uma
presidente por enviar uma medida inquestionavelmente legal ao
Legislativo para que sobre ela delibere?
O delirante blogueiro da Veja afirma que o PT não quer a democracia
,
apesar de reconhecer que ganha eleições sem uma única evidência de um
único ato do partido que afronte a democracia ou qualquer tipo de
liberdade individual. E ainda atribui “ilegalidades” ao partido. Que
ilegalidade o PT cometeu, enquanto instituição? Quer dizer que quando
petistas são acusados de corrupção a culpa é do partido, mas quando
tucanos como Eduardo Azeredo ou demos como José Roberto Arruda são
acusados, aí a culpa é das pessoas e não das instituições?
Com a reportagem que revelou as lambanças de José Dirceu
em Brasília, VEJA denunciou mais do que as lambanças do “consultor de
empresas privadas” — poderoso chefão de um “governo paralelo” e sua
mímica asquerosa de chefe de máfia —; a revista denunciou um método. E
os petistas estão infelizes. Em outros tempos, eles mandariam
empastelar a publicação, fariam quebra-quebra, perseguiriam os
profissionais, exigiriam a demissão desse ou daquele, lotariam os
porões do regime com essa gente recalcitrante… Hoje eles se
civilizaram; pretendem perseguir seus desafetos por meio de
instrumentos legais.
Os petistas lotariam os porões do regime com seus adversários?!! Que
regime os petistas já implantaram no Brasil que tivesse “porões” e que
cometesse violências de qualquer sorte? Quem tinha porões eram os
militares que integraram a ditadura e os quais Azevedo vive exaltando e
defendendo, e aos quais serve, frequentemente, de porta-voz ao repudiar
propostas como a da Comissão da Verdade. Está tudo lá no blog dele. Não
é preciso acreditar em mim.
O texto do PT que volta a pregar o controle da “mídia”
expõe como nunca a natureza do jogo. Eles até se mostravam dispostos a
condescender com a democracia desde que nós não fizéssemos uso efetivo
dela. Era como se dissessem: “Nós garantimos a sua liberdade, mas a
condição é que não nos incomodem”. Tanto é assim que, não faz tempo, a
Executiva Nacional do partido aprovou um documento em que abandonava
essa estupidez. Mudou radicalmente de idéia. VEJA decidiu demonstrar
que liberdade de imprensa não é uma licença que se pede no cartório
partidário, mas um direito garantido pela Constituição, um fundamento
das sociedades livres. Nos limites da lei, não pede licença nem pede
desculpas.
Azevedo considera que é liberdade de imprensa mandar um garoto
recém-saído
da faculdade de jornalismo tentar invadir o quarto de um adversário
político em um hotel e ali colocar escutas ou câmeras sem autorização
da Justiça e em flagrante violação do código penal, o que fez as
polícias civil e federal aceitarem a denúncia contra ele? Acho que não…
Aí não dá! Figurões do partido como Gilberto Carvalho,
secretário-geral da Presidência, e Ideli Salvatti, ministra das
Relações Institucionais, defenderam ontem a “regulamentação da mídia”.
Não custa notar que, durante a campanha — e mesmo depois de eleita —,
Dilma Rousseff repudiou qualquer forma de controle. Ministros exercem
cargos de confiança e falam pela presidente. Chegou a hora de
enquadrá-los ou de confessar um estelionato.
Esse homem não joga palavras fora. Sabe muito bem o que escreve.
Como é que ele sugere “enquadrar” os ministros? Posso pensar em várias
hipóteses, vindo essa conversa de alguém que vive tomando partido de
chefes militares que defendem a ditadura militar. E como seria
estelionato se a proposta de regulamentar a Comunicação é bandeira
antiga do PT?
Os fascistas de esquerda descobriram o gosto pelo
capitalismo, mas não viram graça nenhuma na liberdade, que será sempre
a liberdade de quem discorda de nós. Mas vão perder.
Será que ele quer dizer que os petistas perderão nas urnas ou está
pensando em derrotá-los de outra forma, já que através de eleições os
políticos que apóia não têm conseguido?
É crescente o número das pessoas que lhes dizem: “Não, vocês não podem. Não podem porque estamos aqui”.
Crescente? Onde está esse dado? Em que pesquisa? Por que método ele
chegou a essa conclusão? E quem são “eles”? A quem ele representa, para
falar na terceira pessoa do plural? Dirá que o leitorado do seu blog ou
o da Veja irão impedir “o petismo”?
—–
Você acha que Azevedo é um bobão, um boquirroto que escreve coisas
assim só por estar de cabeça quente? Esqueça. O que ele escreve são
recados. São ameaças. E o PT não pode aceitar que tais palavras sejam
ditas assim, sem explicação. Até porque, esse sujeito não as diria sem
o seu patrão aprovar e este não aprovaria se os seus bons companheiros
que consigo controlam a Comunicação no Brasil não estivessem de acordo.
Espero que me levem a sério. Tudo isso se coaduna com propostas de
manifestações públicas “contra a corrupção” que nada mais são do que
uma reedição do Cansei que pode vir vitaminada por sindicatos e até
participantes pagos. Essas manifestações se somarão ao noticiário que
derrama relatos de “corrupção” no governo Dilma todos os dias. No
domingo, por exemplo, a Folha publicou um caderno só sobre corrupção
onde o PSDB não figura e o PT aparece em destaque.
A campanha moralista que serviria para retaliar uma proposta que
faça os barões da mídia perderem dinheiro e poder vem aí e não me
surpreenderia se os militares boquirrotos que vivem insultando Lula,
Dilma e o PT não estivessem dispostos a pôr as caras para fora da
caserna “em defesa da liberdade e contra a corrupção do petismo”.
Anotem, pois, o que digo, petistas. Quem avisa amigo é.
Comentários
Postar um comentário