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| Cala a boca, jornalista |
As relações arcaicas que ainda prevalecem nas redações brasileiras,
sobretudo naquelas ancoradas nos oligopólios familiares de mídia,
revelam um terrível processo de adaptação às novas tecnologias no qual,
embora as empresas usufruam largamente de suas interfaces comerciais,
estabeleceu-se um padrão de interdição ideológica dos jornalistas. Isso
significa que a adequação de rotinas e produtos da mídia ao que há de
mais moderno e inovador no mercado de informática tem, simplesmente,
servido para coibir e neutralizar a natureza política da atividade
jornalística no Brasil.
Baseados na falsa noção de que o jornalista deve ser isento, as
grandes empresas de comunicação criaram normas internas cada vez mais
rígidas para impedir a livre manifestação dos jornalistas nas redes
sociais e, assim, evitar o vazamento do clima sufocante e autoritário
que por muitas vezes permeia o universo trabalhista da mídia. Em suma,
a opinião dos jornalistas e, por analogia, sua função crítica social,
está sendo interditada.
Recentemente, a ombudsman da Folha de S.Paulo, Suzana Singer, opinou
que jornalista não deveria ter Twitter pessoal. Usou como argumento o
fato de que, ao tuitar algo “ofensivo”, o jornalista corre o risco de,
mais para frente, ter que entrevistar o ofendido. A preocupação da
ombudsman tem certa legitimidade funcional, mas é um desses absurdos
sobre os quais me sinto obrigado a, de vez em quando, me debruçar, nem
que seja para garantir o mínimo de dissociação entre a profissão, que
tem caráter universal, e os guetos corporativos onde, desde os anos
1980, um sem número de manuais de redação passaram a ditar todo tipo de
norma, inclusive comportamental, sobretudo para os repórteres.
Suzana Singer deu um exemplo prosaico, desses com enorme potencial para servir de
case em cursinhos de formação de monstrinhos corporativos que pululam nas redações:
“Hoje o jornalista pode estar em um churrasco, com os amigos, e ser
ofensivo com os palmeirenses porque eles ganharam o jogo de domingo. E
na semana seguinte ele tem que ir entrevistar o presidente do
Palmeiras. Ou seja, é uma situação muito desagradável, que poderia ter
sido evitada se o repórter tivesse a postura adequada de não misturar
as coisas. Não tem como ter dupla personalidade, separar a sua vida
pessoal da profissional, assim como não dá para ter duas contas no
twitter”.
Bom, primeiro é preciso esclarecer duas coisas, principalmente para
os leitores desse blog que não são jornalistas: é possível, sim,
separar a vida pessoal da profissional; e, claro, dá para ter duas
contas no twitter. Essa história de que jornalista tem que ser
jornalista 24 horas é a base do sistema de exploração trabalhista que
obriga repórteres, em todo o Brasil, a trabalhar sem hora extra, ser
incomodado nas férias e interrompido nos fins de semana, como se fossem
cirurgiões de guerra. Também é responsável, na outra ponta, por
estimular jornalistas que se tornam escravos de si mesmo, ao ponto de,
mesmo em festas de crianças e batizados de bonecas, passarem todo tempo
molestando alguma fonte infeliz que calhou de freqüentar o mesmo
espaço.
A interdição imposta aos jornalistas pelas empresas de comunicação
tem servido, entre outras coisas, para a despolitização das novas
gerações de repórteres, instadas a acreditar que são meros repassadores
de notícias e tarefeiros de redações. Desse triste amálgama é que
surgem esses monstrinhos entusiasmados com teses fascistas, bajuladoras
profissionais e bestas-feras arremessados sobre o cotidiano como cães
raivosos, com carta branca para fazer, literalmente, qualquer coisa.
Não causa mais estranheza, mas é sempre bom expor o paradoxo dessa
posição da ombudsman, que não é só dela, mas do sistema na qual ela
está inevitavelmente inserida, desde que o pensamento reacionário e de
direita passou a ser bússola fundamental da imprensa brasileira. Digo
paradoxo porque o mesmo patronato que confunde, deliberadamente,
liberdade de expressão com liberdade de imprensa, para evitar a
regulação formal da atividade midiática, é esse que baixa norma sobre
norma para impedir seus funcionários de se manifestarem no ambiente de
total liberdade das redes sociais, notadamente o Twitter e o Facebook.
Não o fazem, contudo, por zelo profissional.
Essa interdição visa, basicamente, evitar que os jornalistas opinem,
publicamente, sobre a própria rotina e, assim, exponham as mazelas
internas das corporações de mídia. Ou que expressem opiniões contrárias
à de seus patrões. Foi assim, por exemplo, no caso da bolinha de papel
na cabeça de José Serra, na campanha de 2010. Aquela farsa ridícula foi
encampada, sem nenhum respeito ao cidadão consumidor de notícia, por
quase toda a imprensa, por imposição editorial. Diversos colegas
jornalistas, alguns que sequer conheço, me mandaram mensagens (um me
abordou numa livraria de Brasília) implorando para que eu tratasse do
assunto nas redes sociais. Todos me informaram que seriam demitidos
sumariamente se contestassem, no Twitter e no Facebook, a tese patética
do segundo ataque com um rolo de fita crepe. Todos, sem exceção.
A ética do jornalista é a ética do cidadão, dizia um grande
jornalista brasileiro, Cláudio Abramo, aliás, responsável pela
modernização de O Estado de S.Paulo e da Folha, nos anos 1960 e 1970.
Portanto, nada mais natural que tenha o jornalista os mesmos direitos
do cidadão, aí incluído o de se expressar. Impedi-lo, sob um argumento
funcional, de exercer seu direito de opinião e crítica é, no fim das
contas, mais um desses sinais de decadência moral da mídia brasileira.
E, claro, retrato fiel do que ela se tornou nos últimos anos.
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