Por Vladimir Safatle
Na Folha de São Paulo
Dez anos após os ataques que destruíram o WTC, é difícil não se perguntar sobre o que
tal acontecimento nos deixou.
Três processos interrelacionados parecem se destacar.
Primeiro, há dez anos o medo conseguiu aparecer como o afeto central do
político. Depois da euforia do mundo sem fronteiras patrocinada pela
queda do Muro de Berlim e pelas festas de Goa trance, a destruição do
WTC conseguiu fazer com que discursos paranoicos de perseguição e
violação iminentes de nossas formas de vida colonizassem as
preocupações políticas.
Embora atos terroristas tenham sido uma constante desde o fim da Segunda Guerra,
nunca eles serviram tão bem a
martelar uma cultura generalizada do medo. Graças a tal
elevação do medo a dispositivo central da vida social, o
campo do político se limitou,
em larga medida, à gestão (e
produção) da insegurança. Na
falta do que oferecer em termos de futuro e de reforma socioeconômica, bravatas securitárias vinham a calhar.
Com isto (e este é o segundo
ponto), ficou fácil criar uma situação onde não era mais possível distinguir estado de paz e
estado de guerra. A partir do 11
de Setembro, vivemos em um
estado de guerra permanente,
que permitiu a destruição sistemática de aparatos jurídicos
que garantiam direitos civis de
inviolabilidade.
Desde o "USA Patriot Act",
que criava a suspensão legal
de direitos individuais em nome da caça ao terrorismo, até a
criação de bancos de dados gigantescos em países como a
França, onde até mesmo sindicalistas e líderes estudantis
foram fichados, o que se viu
foi o uso descarado do 11 de
Setembro como justificativa
para a consolidação de uma
lógica policial na relação entre
Estado e sociedade civil.
Tal aparato jurídico, embora criado para situações "excepcionais",
tende a permanecer e começar a ser utilizado para as mais diversas
funções.
Por exemplo, a Inglaterra não
teve pudor em usar leis contra
o financiamento do terrorismo
para procurar sequestrar ativos da Islândia quando este
país decidiu não saldar dívidas, na crise de 2008.
Por fim, os ataques aos EUA produziram um longo processo de
fortalecimento do racismo e da xenofobia. Hoje, mais do que nunca,
temos a sensação de regredir à época das Cruzadas e de suas batalhas
contra os mouros.
A proliferação de trechos da Bíblia e a repetição compulsiva do nome
"Deus" nos discursos em homenagem às vítimas da destruição do WTC não é
um acaso. Para a Europa, isso veio a calhar, já que um conflito de
classe contra a massa pobre de imigrantes desprovidos de direitos pode
se transformar em choque redentor de civilizações.
Para os EUA, Barack Obama pode agora ensaiar, sem complexos, o figurino "Ricardo Coração de Leão".
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