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Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

Exceção permanente

Por Vladimir Safatle
Na Folha de São Paulo

Dez anos após os ataques que destruíram o WTC, é difícil não se perguntar sobre o que tal acontecimento nos deixou.
Três processos interrelacionados parecem se destacar.

Primeiro, há dez anos o medo conseguiu aparecer como o afeto central do político. Depois da euforia do mundo sem fronteiras patrocinada pela queda do Muro de Berlim e pelas festas de Goa trance, a destruição do WTC conseguiu fazer com que discursos paranoicos de perseguição e violação iminentes de nossas formas de vida colonizassem as preocupações políticas.
Embora atos terroristas tenham sido uma constante desde o fim da Segunda Guerra, nunca eles serviram tão bem a martelar uma cultura generalizada do medo. Graças a tal elevação do medo a dispositivo central da vida social, o campo do político se limitou, em larga medida, à gestão (e produção) da insegurança. Na falta do que oferecer em termos de futuro e de reforma socioeconômica, bravatas securitárias vinham a calhar.
Com isto (e este é o segundo ponto), ficou fácil criar uma situação onde não era mais possível distinguir estado de paz e estado de guerra. A partir do 11 de Setembro, vivemos em um estado de guerra permanente, que permitiu a destruição sistemática de aparatos jurídicos que garantiam direitos civis de inviolabilidade.
Desde o "USA Patriot Act", que criava a suspensão legal de direitos individuais em nome da caça ao terrorismo, até a criação de bancos de dados gigantescos em países como a França, onde até mesmo sindicalistas e líderes estudantis foram fichados, o que se viu foi o uso descarado do 11 de Setembro como justificativa para a consolidação de uma lógica policial na relação entre Estado e sociedade civil.
Tal aparato jurídico, embora criado para situações "excepcionais", tende a permanecer e começar a ser utilizado para as mais diversas funções.
Por exemplo, a Inglaterra não teve pudor em usar leis contra o financiamento do terrorismo para procurar sequestrar ativos da Islândia quando este país decidiu não saldar dívidas, na crise de 2008.
Por fim, os ataques aos EUA produziram um longo processo de fortalecimento do racismo e da xenofobia. Hoje, mais do que nunca, temos a sensação de regredir à época das Cruzadas e de suas batalhas contra os mouros.
A proliferação de trechos da Bíblia e a repetição compulsiva do nome "Deus" nos discursos em homenagem às vítimas da destruição do WTC não é um acaso. Para a Europa, isso veio a calhar, já que um conflito de classe contra a massa pobre de imigrantes desprovidos de direitos pode se transformar em choque redentor de civilizações.
Para os EUA, Barack Obama pode agora ensaiar, sem complexos, o figurino "Ricardo Coração de Leão".

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