Da Folha de São Paulo
O Comando Sul das Forças Armadas americanas foi fonte de atritos entre
EUA e Brasil depois do 11 de Setembro, segundo um livro que será
lançado amanhã pelo ex-embaixador em Washington Rubens Barbosa.
Além de alimentar a imprensa com boatos sobre terrorismo na
Tríplice Fronteira (Brasil, Argentina e Paraguai), a fim de "valorizar
sua atuação", o comando sediado em Miami treinava militares paraguaios
propondo cenários em que os "brasiguaios" provocavam a partição do país
vizinho.
O então chefe da força, general James Hill, equiparou as drogas a
"armas de destruição em massa" e sugeriu que restrições legais ao uso
dos militares contra o tráfico fossem "eliminadas" na América Latina.
"Hill tentava vincular seu comando aos temas quentes da agenda de
segurança a fim de garantir sua fatia no orçamento do Pentágono",
escreve Barbosa em "Dissenso de Washington - Notas de um Observador
Privilegiado sobre as Relações Brasil-Estados Unidos".
O atual consultor e editor da revista "Interesse Nacional" relata
sua experiência nos EUA entre 1999 e 2004, período da eleição de George
W. Bush e do 11 de Setembro.
Ele esteve no Pentágono dois dias depois do local ter sido
atacada. Foi o primeiro a ser avisado por John Bolton, do Departamento
de Estado, de que os EUA queriam afastar o brasileiro José Maurício
Bustani da Opaq (órgão da ONU para a proscrição de armas químicas).
Bolton depois foi embaixador na ONU, entidade que Bush criticou,
em encontro com o presidente Lula, chamando-a de "shopping de boas
ideias".
Barbosa traz os bastidores de uma relação bilateral que cresceu
sob Fernando Henrique Cardoso e Lula. O Brasil começa a ter reconhecido
seu papel global e não só regional, mas é um avanço aos trancos, como
nos últimos 200 anos. "O Brasil está empenhado em salvar o mundo dos
EUA", queixaram-se funcionários americanos aos brasileiros em 2002.
Na ocasião, os dois países divergiam sobre a criação da Alca (Área de Livre Comércio das Américas).
Enterrada sob Lula, a proposta morreu antes, diz Barbosa, quando os EUA
retiraram da agenda temas de interesse brasileiro, como os subsídios
agrícolas.
O livro, crítico à diplomacia lulista por não apostar na "parceria
estratégica" firmada em 2003, mostra a ação de José Dirceu, quando
presidente do PT, para tranquilizar os EUA sobre as intenções de Lula
recém-eleito.
Conta como Bush quase aceitou a proposta do Brasil de negociar um acordo comercial entre EUA e Mercosul, via paralela à Alca.
Há muitos detalhes reveladores, como um diplomata americano que
pergunta a um assessor: "Quando mesmo foi nossa intervenção na
República Dominicana?"
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