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Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

Com Battisti, a mão pesada da edição

Por Suzana Singer
Ombudsman da Folha de São Paulo


"Senhora, a Itália me massacrou. No Brasil, tive que me explicar a todos os que me apoiam, um a um." Com um marcante sotaque italiano, Cesare Battisti descreve a repercussão da reportagem publicada no domingo passado na Folha. 
O texto, sobre a nova vida do ex-terrorista, colocou fogo no tiroteio ideológico que envolve o caso. Na Primeira Página, uma foto de Battisti soltando uma gargalhada com uma cerveja na mão e o título "La dolce vita 'clandestina'". Em Poder, mais duas fotos e "Revolução? Isso é uma piada".
A repercussão foi feroz. Battisti e amigos acusam a Folha de três desvios éticos: 1) o repórter teria aproveitado relações familiares para ganhar a confiança do ex-fugitivo; 2) a equipe teria levado o entrevistado ao bar; 3) o jornal revelou que ele vive em Cananeia, rompendo um acordo para preservá-lo.
A primeira acusação é pueril. Battisti, 56, não é um desavisado, abordado por um repórter sedutor. Desde que o seu caso estourou, acompanha a imprensa brasileira e sabe bem os riscos embutidos em abrir sua morada a um jornalista. Ao contrário, seria antiético se o repórter, para agradar a um parente, tivesse feito um texto laudatório. Sobre o segundo ponto, a Folhaafirma que foi iniciativa do entrevistado entrar no bar, o que ele nega. "Senhora, é a última coisa que eu faria, não sou um idiota."
Tanto faz de quem foi a ideia: o importante é que o entrevistado viu que estava sendo fotografado (ele olha para a câmera), não foi vítima de um paparazzo.
O sigilo a respeito da cidade onde ele vive foi, de fato, quebrado, mas, dois dias antes da publicação, o repórter consultou o dirigente sindical Magno de Carvalho, o dono da casa onde Battisti está. A informação havia vazado na internet e Carvalho concordou que não havia mais segredo a preservar.
Tudo isso não significa que a Folha tenha razão, mas a crítica se dá pelos motivos errados. Joga-se na confusão para atingir a credibilidade do jornal.
A reportagem está correta, mas a mão pesada da edição estragou o resultado. O corte dado à foto original amplia o entrevistado e a sua cerveja, fazendo com que a risada, ao lado do "la dolce vita clandestina", soe como um deboche.
O texto não suporta esse título: ele mora em uma casa modesta, vive quase sem dinheiro, isolado, com medos persecutórios. Sua vida só é doce para os que acreditam que Battisti deveria estar na prisão.
Na página interna, aparece outra foto dele bebendo, desta vez uma cachaça. Redundante, só faria sentido se houvesse algum indício de alcoolismo, o que não é o caso.
O título -"Revolução? Isso é uma piada"- omite a palavra "armada", o que passa a impressão de que ele desistiu de qualquer luta social. Como diz Battisti, ele ficou mal com a "direita" e com a "esquerda".
Em dez editoriais, ao longo de dois anos, a Folha defendeu duramente a extradição. "O caso (...) ilustra de forma exemplar o mau hábito, desenvolvido nos últimos oito anos, de submeter decisões de política externa às conveniências paroquiais de adular certa militância esquerdista que apoia o governo", dizia o texto de janeiro deste ano.
Nenhum problema nisso. O jornal deve defender suas posições no espaço correto. Só não pode deixar que a opinião contamine o noticiário, como aconteceu no domingo. 

Comentários

  1. A Folha sempre defendeu a submissão brasileira em apoiar a extradição de Battiste a Italia, talvez por falta de dissernimento, opnião própria e alienação. O editorial e os jornalistas são muito fracos ao assimilarem ideias enlatadas e prontas da imprensa estrangeira. Talvez pior, como foram apoiadores da ditadura militar, pretendem colaborar com injustiças tambem nos dias de hoje.

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