Por Carlos Fialho
Do Blog O Fiasco
Escrever crônicas semanais aqui no Novo Jornal ou textos opinativos
no meu blogue pessoal (
blogdofialho.wordpress.com) me obrigam por vezes
a pisar nos calos de alguns. Normal. Uma coluna autoral como esta serve
para expressar a opinião de quem a assina e isso nem sempre agrada a
todos que a leem. Não raro, os próprios colunistas são também alvos de
críticas por suas palavras contrariarem interesses ou posições de
outrem.
Porém, venho até aqui dividir com vocês certa preocupação. Temo
tornar-me um “intolerante intelectual”, aludindo de forma
preconceituosa o louvável trabalho de beneméritos natalenses. Evito
fazer parte, mesmo que involuntariamente, do setor da mídia que se diz
“engajado” e “intelectualizado”. Estremeço ante a aterrorizante
possibilidade de me converter em um redator demasiadamente refinado, um
colunista acadêmico ou (O horror! O horror!) um blogueiro progressista.
Deus que me defenda!
Será que tenho alimentado em meu ser uma odiosa e abjeta persona que
faz da incompreensão, agressividade, preconceito e inveja, os
propulsores de uma modalidade de crítica parnasiana? Uma necessidade de
falar mal dos outros pelo simples ato ou efeito de falar mal dos
outros? Ou, quem sabe, eu encontre, no hábito de criticar com cáustica
picardia e demolidora perspicácia a subentendida afirmação de que os
defeitos alheios ressaltam sobremaneira minhas “inegáveis qualidades”?
Será que tenho sido invadido por tais armadilhas da vaidade? Venho
sendo assaltado pelo veneno do ódio e da ambição desmedida? Será que
sou um patrulheiro ideológico? Escondo, mesmo sem dar-me conta,
simpatias partidárias dissimuladas?
Refleti demoradamente sobre todas estas questões, deitado em uma
rede na varanda, contemplando o mar e lendo “América” de Robert Crumb e
“O Capote e outras histórias” de Nikolai Gógol (percebam bem o “redator
refinado” e “colunista acadêmico” em todo o seu esplendor, já que me
utilizo deste parágrafo apenas para exibir diante de vocês minha
cultura expressa no gosto pela leitura e no involuntário álibi de
autores que nem estão aqui pra se defender. Tudo isso, claro,
disfarçado de uma pretensa despretensão, ao citar o hábito simples de
vislumbrar a natureza no embalo da rede. Fecham parênteses.).
Após pensar sobre minha condição atual cheguei à seguinte conclusão: eu sou sim um terrível e incorrigível intolerante.
Sou intolerante contra o culto à ignorância, a ode à burrice, a
devoção explícita à mediocridade natalense que acabará por definir
nossa identidade de povo de segunda classe e será eternizada junto às
futuras gerações.
Sofro com a revolta que aflora em mim diante de parlamentares conterrâneos que votaram no próprio aumento de salário.
Rio desgostosamente para não chorar de políticos que não fazem nada
a não ser namorar celebridades gostosas dotadas de coeficiente
intelectual equivalentes a suas próprias cabecinhas ocas, enquanto
promovem festas exclusivas.
Nutro um irreversível preconceito contra aqueles que desviam
dinheiro de escolas, ambulâncias, estradas, das secretarias de
educação, do Foliaduto, do DNIT, da SEMOB, da PQP!
Tenho verdadeiro asco de todos os que recebem suborno para aprovar
projetos que contrariem as leis do município \ Estado\ país, que
recebem um por fora para facilitar atos moralmente condenáveis e até
mesmo para realizar trabalhos que até são favoráveis à população, mas
que só saem do papel após um reforço na remuneração do secretário \
assessor \ gerente \ diretor.
Desaconselho o contato com qualquer um que tenha um histórico de
calotes e maracutaias, que mesmo faturando milhões, nunca cogitem
saldar as dívidas do passado, que acreditem que o fato de terem se
tornado ricos possa servir de fator redentor a sua vida pregressa,
mesmo que alguns “amigos” afirmem isto, até mesmo em colunas de jornal.
Passo mal ao constatar que o atrofiamento dos córtex cerebrais
conterrâneos seja a regra, a prática usual, o único caminho da nossa
juventude e que, quando alguém tenta sugerir uma revolução por meio da
educação, os poderosos de plantão acreditem que a melhor via é o
corredor da folia.
Não tolero em qualquer hipótese o egoísmo desenfreado que molda
nosso jeito de ser, a total e absoluta falta de consideração pela
cidade, pelos demais cidadãos, visível nas pequenas contravenções
cotidianas, desde o lixo que jogamos no chão, passando pela trancada
que damos no trânsito e pelo troco a mais que nos recusamos a acusar e
devolver.
Fico estupefato com jornalistas que defendem a “livre iniciativa” de
favorecerem este ou aquele grupo político e depois saem se dizendo
imparciais. Ah, façam-me o favor!
Divirto-me com alguma condescendência ao perceber tantos colegas
autoelogiosos em nossas páginas impressas ou na blogosfera local. “Eu
dei tal notícia primeiro”. “Eu sou amigo de beltrano”. “Eu sou foda!”
Mal sabem eles que elogio, pra valer de verdade, tem que vir dos outros.
Enfim, são muitos os sentimentos impuros a serem sufocados em meu
coração. Preciso fazer um persistente trabalho de reabilitação, um
constante exercício de amor ao próximo, de compreensão. Posso até ficar
amigo, sei lá, do Presidente da Assembleia, Deputado Ricardo Mota,
tornando-me seu fiel escudeiro e incondicional defensor, estando junto
dele se um dia ele se tornar, digamos, vice-governador. Ou quem sabe,
eu posso até passar a ser o último natalense a gostar da Micarla.
Poderia também virar fã de alguma banda de forró da cidade. Olha aí que
beleza: “Vou não. Posso não. Minha mulher não deixa não.”
Ou então continuo sendo o mesmo intolerante intelectual que tenho me
revelado. Esse monstro que ressurge no Novo Jornal todos os sábados com
sede de vingança, para praticar um injustificável e perverso
patrulhamento ideológico.
Ai, como eu sou intolerante!
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