Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...
Aos
83 anos, José Paulo Bisol recebeu o Sul21 em sua casa, em Osório. Em
uma entrevista de três horas, ele repassou momentos importantes de sua
trajetória. "Eu saí da política porque eu fui muito perseguido, muito
judiado. É difícil aguentar" |
Nubia Silveira
Neto de um descendente de italiano, dono de “uma coloniazinha” em
que produzia vinho, e filho de um carroceiro que vendia vinho em Santa
Maria, o ex-senador e ex-secretário de Segurança do Rio Grande do Sul
José Paulo Bisol teve uma infância pobre, ao lado de uma irmã e dois
irmãos. Estudou – “coitado do meu pai, foi obrigado fazer das tripas
coração para que os filhos estudassem” -, formou-se em Direito e foi
ser juiz no interior do Estado. Com o golpe de 64, trocou o Direito
pelo Jornalismo. Depois entrou na política, sendo deputado estadual e
senador pelo PMDB. Disputou a eleição presidencial de 1989 como
candidato a vice na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva, seu amigo.
Hoje, vive afastado da política, em meio aos livros, na bela casa que
construiu em um condomínio de Osório, a 95 quilômetros de Porto Alegre,
onde recebeu a equipe do Sul21 – Benedito Tadeu César, Nubia Silveira e Ramiro Furquim. Foram três horas de conversa.
Aos 83 anos, que serão completados em outubro, quatro filhos, nove
netos e um bisneto, acaba de passar por mais uma cirurgia. Já foram 30.
A última, do quadril, o impede de subir e descer escadas como gostaria.
Prefere ficar recolhido em seu escritório, lendo, escrevendo, ouvindo
música e o canto dos passarinhos. Não perdeu a capacidade de se
emocionar até as lágrimas. “A música para mim, é um problema, porque se
eu ouço música, fico louco”, afirma. “Choro demais. É muito complicado.
Com Mozart, com Beethoven, eu me arrebento. Melhor não ouvir. Eu me
desmancho como uma criança”. Vera, a sua mulher, é testemunha de que
esta é uma emoção sentida não apenas com os clássicos.
"Ficou bem claro que Lula é um neoliberal capitalista. Ele não tem nada de novo" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Bisol também não perdeu a esperança de encontrar o novo. E a falta
do novo no governo Lula o decepcionou. “No seu governo, Lula se revelou
claramente um capitalista liberal. Ele não tem nada de novo”, afirma.
Mas, ressalta que o amigo, com quem ainda mantém contato, fez um bom e
generoso governo. Acredita que a sua sucessora, Dilma Rousseff, é uma
mulher poderosa que poderá até governar melhor do que Lula.
Tem saudades do PT dos primeiros anos – “era uma coisa fantástica”.
Ele e Lula faziam uma boa dupla de oradores. Bisol começou a discursar
antes dos 10 anos, no casamento de um tio. “Desde então, nunca mais
parei de discursar e fazer palestras”, diz. Desde criança, também,
escreve poesias. Só que, agora, não guarda mais os poemas.
Nesta entrevista ao Sul21, Bisol fala de sua vida
como juiz, jornalista e político. Revela que abandonou a política
porque foi “muito perseguido, muito judiado”. Sul21 – A sua vida profissional começou no Direito. O senhor foi promotor, juiz..
José Paulo Bisol –
Na verdade, não sei o que é o começo. Agora, estou aprendendo o que é o
fim. Sei que sou uma diversidade incrível. A maior descoberta da minha
vida é que o eu é imaginário, o eu é lacaniano (risos). Ninguém sabe
quem é o eu, porque ele é puramente imaginário como diz Lacan (psicanalista francês Jacques Lacan – 1901-1981).
E para ser sujeito é preciso um evento, incorporar o acontecimento. Por
exemplo, para falar dos mais antigos, tu precisas encontrar Cristo. Aí
descobres um evento. Você incorpora o acontecimento e pode se tornar um
sujeito. Se não encontrar, não vai se tornar um sujeito. Sul21 – O senhor encontrou Cristo?
Bisol – Fui
educado dentro da religião católica. Mas, eu sinto Cristo como uma
revolução, um evento, um acontecimento. Acho que o mundo está envolvido
nisso hoje. Quer dizer, não há mais eventos. O que diz o (cientista político nipo-americano Yoshihiro Francis)
Fukuyama? Terminou a história. Não haverá mais eventos. Não haverá mais
revoluções. Tenho que viver da saudade de Robespierre (um dos principais nomes da Revolução Francesa), porque agora não vai acontecer mais revoluções. O capitalismo é o capitalismo e acabou. A verdade é esta.
"Agora, estou aprendendo o que é o fim" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Mas, o senhor não acredita no fim da História. Bisol – Aqui, em Osório, toda a população vive como se Fukuyama tivesse razão. E o Fukuyama tem razão aqui em Osório. Sul21 – A sua vida profissional foi sempre marcada pela
defesa da igualdade, dos direitos humanos. Como o senhor trocou o
Direito pelo Jornalismo e foi trabalhar em televisão?
Bisol -
Sempre fui um rebelde. Quer dizer, sempre estive em desacordo com o
mundo. Estou sempre do lado de lá do comum das coisas. Eu não tenho
ajuste. Nunca tive. Como é que eu fui estudar Direito? Nem sei. Acho
que estudei Direito por medo de não ter inteligência suficiente para
ser outra coisa. Direito seria mais fácil. E foi uma experiência
importante para mim. Estudei bastante no Direito. Fui professor, e acho
que não fiquei na mediocridade. Nesse período, elaborei uma teoria da
norma jurídica. Hoje, vejo meu filho trabalhar sobre ela e chegar a
conclusões interessantes. Eu estava ali, mas sempre em desacordo. Sul21 – Também em desacordo com o Direito?
Bisol -
Como é que vou acreditar em Direito nesse momento, em que, há cerca de
um ou dois anos, o ex-vice-presidente norte-americano Dick Cheney
disse: “Nós também temos o nosso lado negro, sem o nosso lado negro nós
não sobrevivemos”. Isto quer dizer: “nós torturamos, nós estudamos
tortura”. E aí eu vou continuar fazendo discurso sobre os direitos
humanos? Eu não sou hipócrita. E sem o discurso dos direitos humanos, o
que é o Direito? Para que serve? Se não é pra matar a fome dos
famintos, se não é pra curar os doentes, se não é pra dar algum sentido
aos desesperados, pra que serve o Direito? Então, este é um fracasso na
minha vida. Sul 21 – O senhor considera esta luta pelos direitos humanos a mais …
Bisol – Eu
vivi a defesa dos direitos humanos com paixão. Mas vi que era uma
grande farsa. É só quando tudo está bem que os direitos humanos
funcionam. Quando está mal, há tortura, violência. E quem mais tortura?
Os americanos, o exemplo de democracia. Outra coisa que me espanta
incrivelmente são as tais revoluções militares na América Latina. Todo
mundo fala que os exércitos nacionais fizeram revoluções. Isso é uma
mentira socializada. Os militares foram instrumentos dos americanos, o
que coloca até a questão do nacionalismo deles em jogo. Todos os
movimentos – no Chile, Guatemala, Uruguai, Argentina, Brasil – se deram
da mesma forma. Um pouco mais violento aqui, outro um pouco mais
violento lá. E quem elaborou tudo? Quem controlou tudo? Quem determinou
tudo? Foram os americanos. Agora eu pergunto para vocês: como vou levar
isso a sério? Quer dizer, existem mentiras sagradas, existem silêncios
sagrados, onde ninguém toca, e todo mundo sabe. É só se deter um
minutinho e todo mundo sabe a verdade, mas ninguém fala. A mídia nunca
dirá e nunca disse uma só palavra verdadeira sobre o assunto.
"Existem silêncios sagrados, onde ninguém toca" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – O senhor está falando especificamente sobre o golpe, ou a mídia não diz a verdade sobre nenhum assunto?
Bisol - Eu estou falando sobre a verdade. Sul21 — A mídia não diz a verdade sobre nada?
Bisol - Olha, até pode dizer, circunstancialmente, a verdade… Sul21 – O senhor fez parte desta mídia. Então, o senhor acreditava que dizia a verdade. O que mudou de lá para cá?
Bisol -
Quando eu estava nessa mídia, vivíamos sob o governo militar. Quer
dizer, eu escrevia meus artiguinhos e era decidido lá, por não sei
quem, se podia publicar ou não. Sul21 – A sua história de vida é de engajamentos,
revoluções, desde a sua militância no Direito, na mídia, na política,
pelos direitos humanos.
Bisol - E agora tu vês. Dá uma
olhadinha, já que colocaste isso que me parece rigorosamente
verdadeiro; dá uma olhadinha nas revoluções. A revolução de Cristo se
transformou numa igreja perversa, que tem 600 anos de assassinatos, por
meio da Inquisição. A Revolução Francesa de Robespierre. Ele sabia que
toda revolução para ser mantida tem que usar o que Walter Benjamin
chamou de “violência divina”. Não usou adequadamente. E o que resultou
da Revolução Francesa? Uma revolução com a qual Kant ficou espantado. A
parte sangrenta não interessava a ele, mas a transformação interessava.
Hegel não é fruto dessa revolução também? Mas a revolução deu em quê?
Conseguiu extinguir a monarquia francesa e tal, mas caiu no Napoleão.
Quer dizer, fracasso! Mencionei dois fracassos. Sul21 – E a revolução comunista?
Bisol – É a
revolução do século XX. Tem que respeitar Marx até hoje. É só ler um
pouquinho com atenção. O cara é extraordinário. Além disso, o coração
dele é enorme, pensando num ser humano de muito mais qualidade. Os
fundamentos desse evento, desse acontecimento, são nobilíssimos. E
superinteligentes. E mais do que isso: muito verdadeiras. E deu no que
deu, rapaz. Deu em Stalin. E o que era o Stalin? O equívoco se chamava
materialismo histórico. O que era materialismo histórico? Um fetiche.
Transformou-se num totalitarismo. A história foi um instrumento, que o
Partido Comunista usou para uma dominação total. Fracasso! Não pelas
razões que se dizem aí. Fracasso porque inclusive a “violência divina”
chegou a ser utilizada brutalmente e deu no que deu, afinal das contas.
Bom, vamos adiante: uma revolução dentro da revolução: a chinesa. Vou
procurar resumir bastante, se não a entrevista de vocês vai ficar
impossível. O que aconteceu com Mao Tsé-Tung? O sujeito fez a tal da
revolução cultural, que foi de uma violência incomum, e destruiu
padrões tradicionais da China e tudo mais. Para quê? Para ele
transformar o trabalhador chinês na mão de obra mais barata do mundo e
utilizar o comunismo como instrumento da realização capitalista da
China. Um sujeito pegou o comunismo como instrumento de desenvolvimento
capitalista real, verdadeiro. E a China vai ser a maior economia do
mundo, daqui a um pouquinho. Já é quase. Sul21 – De certa forma isso aconteceu, também, na União Soviética. Bisol - Tanto que fizeram com os agricultores e não com os operários.
Sul21 – Então, fazendo uma análise de como acabaram as grandes revoluções…
Bisol -
Eu só queria dizer isso: a vida não tem sentido se você não se engaja a
um acontecimento que tenha uma significação ética de trazer o homem
novo. Entende? Sul21 – Vamos falar das suas revoluções. Como elas acabaram?
Bisol – Do mesmo jeito. Sul21 – O senhor participou da Constituinte, que foi uma verdadeira revolução no país.
Bisol -
Não sou um niilista. Sei que eu consegui contribuir – e até
razoavelmente bem – com algumas coisas boas, no meu tempo. Mas,
essencialmente, as coisas continuaram duras para os pobres, para
aqueles que são parte nenhuma da sociedade. São parte, mas a parte
nenhuma da sociedade. Sul21 – Dê um exemplo de quem é parte nenhuma da sociedade.
Bisol -
Meu pai representava a parte não-parte da sociedade. Essa expressão
“parte não-parte” é utilizada pelos novos comunistas hoje. O
proletariado é a parte não-parte da sociedade. Não é o cara que devia
estar trabalhando e não trabalha porque não tem emprego. É toda a parte
não-parte da sociedade.
"Meu pai representava a parte não-parte da sociedade" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Mas quando o governo Lula tirou da pobreza milhões de brasileiros, ele não fez essa parte não-parte ser parte?
Bisol – Esse é o jogo da esquerda liberal e tal. É o jogo desse francês que fez uma palestra aí em Porto Alegre… Sul21 – Edgar Morin.
Bisol - Morin, Morin. Sul21 – Mas, estes milhões de brasileiros que saíram da miséria não passaram a ser parte?
Bisol - Mas é insignificante. Eu e meus irmãos estudamos e saímos. Vivemos uma vida bem razoável com sobras. Mas a maioria não sai. Sul21 – O que queremos dizer é que há um movimento de
ascensão social que é bastante expressivo. Calcula-se que, talvez,
30/40 milhões de pessoas tenham ascendido socialmente, inseriram-se na
sociedade de consumo, sociedade de massa, capitalista.
Bisol – Mas,
eles foram inseridos em quê? Eles foram inseridos num mundo vazio, sem
sentido. Quer dizer, você vai falar em política hoje e a linguagem na
rádio e na televisão é a do “economês”. Você não fala mais em política.
Não existe mais problema de política. Só existem problemas econômicos.
Só existe o “você tem que lidar com o dinheiro”, o fetiche dinheiro. Sul21 – Há um processo, que é uma dinâmica inerente ao
processo de transformação das revoluções, de institucionalização das
revoluções. O senhor participou de diversas grandes mudanças no Brasil,
nos últimos 50 anos. O senhor participou, desde o início, da era Lula.
Foi candidato a vice-presidente na chapa de Lula. O Lula acabou sendo
presidente por dois mandatos e fez a sua sucessora. O que o senhor acha
disso?
Bisol – Continuo achando o Lula uma criatura
incrível, de uma inteligência poderosa. O sujeito tem um sentido
criativo fora do comum. Mas, se vou raciocinar friamente, como estava
examinando os eventos, o evento Lula é um fracasso tremendo (risos),
porque a gente se envolveu – eu pelo menos me envolvi – na crença do
novo. Na crença de uma partilha mais adequada dos valores. E o Lula se
revelou claramente um capitalista liberal no seu governo, que foi até
bom, comparado com outros. Mas, ficou bem claro que ele é um neoliberal
capitalista. Ele não tem nada de novo.
"O evento Lula é um fracasso tremendo " | Foto: Bruno Alencastro/Sul21
Sul21 – Qual a sua proposta para o novo?
Bisol - O novo foi o que todas as revoluções procuraram e não acharam. Sul21 – E há como achá-lo?
Bisol - É de certo
modo o que Slavoj Zizek disse: “é o comunismo”. A começar pela razão
comum, de tornar a razão, a inteligência, o conhecimento comum a todos.
A começar por aí. Em suma. As revoluções tentam, buscam, procuram, mas
não chegam. Sul 21 – O que o senhor esperava do governo Lula? Por que o senhor se frustrou?
Bisol –
Que ele trouxesse uma ideia de reforma mais profunda, de transformação
mais profunda. Mas eu não sou contra o Lula; acho que ele governou bem
o Brasil. Sul21 – Vamos falar um pouco da sua vida partidária. O que
levou o senhor um juiz e um comunicador brilhante a entrar na política?
Bisol -
Até hoje eu me pergunto isso, porque não tenho nenhuma vocação pra
isso. Eu tenho vocação político-cultural, no sentido de discutir
ideias. Mas fazer política, arrumar voto é a coisa mais nojenta do
mundo. Agora, eu também não pedia voto. “Vota em mim” é um horror sem
fim. Sul21 – O senhor começou no MDB?
Bisol – Não.
Eu era juiz. E não tinha partido mesmo. Agora, eu era de esquerda, era
filho de um carroceiro, tinha consciência desse problema. O problema da
pobreza. E como juiz eu não me comprometi com partido nenhum. Aí eu
saí, e saí por causa de uma falsa revolução, sobre a qual eu acabo de
falar: o golpe militar. E sempre que acontece um golpe de direita, a
primeira força que se coloca do lado desse golpe, que é utilizada por
esse golpe, é a Igreja. A segunda é a Justiça. Essas duas entidades são
a coisa mais triste que existe na história da humanidade. Eu estava lá
na Justiça. Meu professor de Direito Constitucional foi o Paulo
Brossard. E o sujeito armou a derrubada do Jango! Ele me ensinava
Direito Constitucional! Depois, durante o governo militar, ele foi, no
Congresso, o “representante máximo da democracia”. Do outro lado estava
um militar, o Jarbas Passarinho. Esse Brossard, um “modelo de
democracia” – democracia virou brincadeira neste país, sabe? Um sujeito
que armou a queda: “Não podia, Jango não pode”. Uma mera adversidade
política explica qualquer ato moral. Quer dizer, o cara deixa de ser
constitucional no “Jango não pode”. Não sou a favor nem contra o Jango.
Não é isso. Só que ele não era comunista e todo mundo sabe disso. E, de
repente, o professor de Direito Constitucional está contra a
Constituição, porque ele é contra o Jango. Que valores são esses?
Parece que a Constituição tem uma importância tremenda, mas o que tem a
importância é o seu jogo partidário. Entende o que eu quero dizer?
Decepção profunda…
"Meu
professor de Direito Constitucional foi o Paulo Brossard. E o sujeito
armou a derrubada do Jango!" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – O senhor começou a vida política no MDB ou já no PMDB?
Bisol -
Comecei esperando um convite do Brizola, porque quando eu era juiz eu
me entusiasmei com a coragem do Brizola na Legalidade. Até hoje… Mesmo
o Brizola tendo me perseguido. Ele cometeu injustiças sérias comigo e
inventou absurdos a meu respeito. Não sei por quê. Sul21 – Inventou quando era governador ou quando retornou do exílio?
Bisol – Nesse
período aí todo. Foi fazer as pazes comigo depois que nós trabalhamos
juntos na última campanha. Mas eu tenho admiração por ele, porque a
Legalidade não foi uma página pequena. Foi uma página de um homem
realmente forte, generoso e corajoso. É uma página bonita. Eu fui para
a praça pública, em Santana do Livramento, discursar a favor dele. Como
juiz, eu não tinha partido, nem compromisso nenhum. Mas fui. Porque era
a defesa da nossa constitucionalidade, era a defesa da legitimidade, em
suma, era a defesa da verdade, da nossa verdade.
"Legalidade:
foi uma página de um homem realmente forte, generoso e corajoso" |
Foto: Museu de Comunicação Hipólito José da Costa
Sul21 – E o senhor ficou esperando um convite do Brizola para entrar no PTB ou já no PDT?
Bisol -
Aí eu entraria no PTB. Tava esperando. Mas não vinha, não vinha, não
vinha. E eu comecei a ficar nervoso porque não tinha nenhuma
experiência política. E eu queria fazer a experiência de deputado. Aí
eu entrei pro PMDB. Sul21 – A convite de quem?
Bisol - Acho que foi do próprio Pedro Simon. Sul21 – E pelo PMDB o senhor foi eleito deputado estadual
(1982) e logo depois senador (1986) para a Assembleia Nacional
Constituinte, não é mesmo?
Bisol – Fui senador por acaso.
Briguei com o Pedro Simon, por razões do partido. E aí, eu ia ser
candidato a deputado federal e o Pedro, que gerenciava o partido, as
candidaturas, me botou de candidato a senador, numa época em que tinha
aquela dupla (sublegenda, revogada em dezembro de 1986), na certeza de
que eu seria derrotado. Eu tinha certeza que eu não ia me eleger, mas
já que as circunstâncias me trouxeram pra cá, vou pra essa luta. Aí, eu
ia pros comícios do PMDB e eles não me deixavam subir no palanque. O
Sinval Guazzelli, que era meu amigo pessoal e candidato a vice
governador, ficou chateado. Dizia: “pô, tu é candidato do partido e não
pode participar dos comícios, nem nada”. Então ele disse: “eu vou fazer
campanha em separado e tu vem comigo”. E aí eu fiz a campanha toda com
o candidato a vice. E pra surpresa do Pedro, e até minha, me elegi.
Passei por cima de gente importante da época, que eram políticos
consagrados.
"O Sinval era um mistério. Mas uma pessoa boníssima" | Foto: reprodução
Sul21 – O Guazzelli foi governador indicado pelos militares, nos anos 70.
Bisol -
É, não tem explicação mesmo. Até eu tenho um livro publicado contra o
Sinval. O Sinval era um mistério. Mas uma pessoa boníssima. Tinha seus
repentes de histeria, perigosos. E ele tinha aquela história com o pai
dele, que o pai dele era um velho coronel. Aquilo estava entranhado
nele. E os militares tinham confiança nele por esses vínculos com o
coronelismo gaúcho. Sofreu muito, coitado do Sinval. Esse foi uma das
pessoas que morreu com muito sofrimento. Coisa horrorosa a doença dele.
Eu cheguei um dia na casa dele e ele me disse: “Olha, domingo passado
lá na fazenda, caí do cavalo e agora eu estou meio paralítico”. Era o
começo da doença dele. Não tinha nada a ver com a queda do cavalo. Era
uma doença degenerativa. E aí ele foi paralisando, paralisando,
paralisando tudo. Paralisa até a respiração. Sul21 – O senhor ficou pouco tempo no PMDB? O senhor foi, junto com o Mário Covas, um dos criadores do PSDB, não foi?
Bisol – Fui
deputado estadual, como membro do PMDB. O PMDB teve um belo papel
durante o governo militar. Mas, talvez, ele tenha se tornado grande
demais, assim, insolúvel, sem sentido. Mas isso também não tem muita
importância. Tinha essa maravilha que era o PT. O PT era uma coisa
fantástica. Era uma coisa generosa. Era uma convicção de que a gente
podia, de que outro mundo é possível, foi uma coisa fantástica. Mas
depois se dissolveu no próprio governo Lula, que foi um bom governo,
mas se dissolveu no neoliberalismo. Sul21 – O senhor chegou a fundar o PSDB com o ex-governador paulista Mário Covas?
Bisol –
Eu ia participar da fundação do PSDB com Mário Covas. Eu admirava o
Mário Covas. Mas aí o pessoal me chamou para um canto e disse assim:
“olha, a única possibilidade que nós temos de um vice para o Lula és
tu. E tu não podes entrar nem pro PT e nem pro PSDB”. Aí, a pedido do
próprio Lula, eu me inscrevi no partido socialista (PSB).
"O único partido em que me senti confortável foi no PT" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – O senhor, então, não chegou a assinar ficha no PSDB?
Bisol -
Eu não sei se cheguei a assinar alguma coisa. Mas, não cheguei a
trabalhar… O único partido em que me senti confortável, realizado, foi
esse partido que acabo de falar: o PT daquela época. No que eu pude, eu
lutei. Só não entrei pro PT naquele tempo, porque pra ser vice eu não
podia entrar. Isso em 89 e 94. Sul21 – Na campanha de 89, houve um incidente envolvendo o
senhor e o Brizola, não é verdade? Acho que foi num palanque, no Rio de
Janeiro.
Bisol - Acho que não foi no Rio. Foi aqui mesmo
no Rio Grande do Sul. Acho que em Novo Hamburgo. Ele disse que não iria
ao palanque em que eu estivesse. Ele me surpreendeu completamente,
porque nunca tinha me dito nada. Alguém soprou alguma coisa no ouvido
dele e ele acreditou. É por isso que eu digo que ele fez muita bobagem
em relação à minha pessoa. Depois se arrependeu. Quando nós fizemos as
pazes ele me pediu desculpas. Sul21 – Dali para a frente ficaram amigos?
Bisol -
Ficamos distantes. Eu continuei a ser um testemunho favorável a ele, do
seu momento mais importante, que foi o momento da Legalidade. Não dá
para a gente gente desvalorizar o valioso porque houve uma coisa
errada. Essa grandeza é mínima. Sul21 (Benedito Tadeu César) – Nós estivemos juntos durante
os últimos 10 dias da campanha de 89. Fomos de São Paulo para Curitiba
e depois para o Nordeste. E lembro do bimotor em que viajamos para lá e
o episódio que ocorreu.
Bisol - Tu estavas naquele aviãozinho desgraçado? Mas que maravilha, rapaz. Eu me lembro muito bem disso aí. Sul21 (Benedito Tadeu César) – Naquela época não tinha
celular. Liguei para o Gilberto Carvalho e ele me disse assim: “não
conta nada, mas a gente tem uma informação aqui sobre um atentado. Não
deixa o avião sozinho, porque pode acontecer alguma coisa”. Bom, o meu
papel não era te deixar preocupado. Fui até ao avião e disse ao piloto:
“Não sai daí”. Não sei se foi antes ou depois disso que aconteceu a
história daquele manete, que não funcionava e foi preciso usar um cabo
de vassoura.
Bisol – Eu já nem conto mais isso porque vão
me chamar de mentiroso. Agora, tenho uma testemunha aqui (risos). Fazer
o Amazonas com um aviãozinho daqueles é preciso coragem. Meu Deus do
céu. E a gente ia numa cidadezinha pequeninha e pensava: “Ih, daqui não
vai sair nada”. E quando via começava a sair bandeira daquele mato.
Essa imagem não me sai mais da cabeça. Que fenômeno o PT! Nunca
aconteceu e nunca mais vai acontecer. Foi uma campanha inacreditável.
Irrepetível. Aquela campanha foi um cântico, uma glorificação.
Sul21 – Naquele ano era para o Lula ganhar.
Bisol – Era
pro Lula ganhar. Não sei se não ganhou, visse. Na época, se contavam os
votos meio maliciosamente. Não sei se não ganhou. Eu vou te dizer uma
coisa: acho que ele ganhou. Acho que contaram mal (risos). Essa coisa
fantástica do Lula realmente também é irrepetível. Essa linguagem do
Lula, essa invenção linguageira do Lula. Isso é uma invenção genial. A
comunicação do Lula é genial. Genialidade absoluta. Incrível o sujeito.
Que coisa, que força! De onde ele tirou tudo isso? Tenho uma admiração
profunda por ele. Mas fico louco quando tenho que me convencer da
verdade: que ele não passa de um neoliberal. Sul21 – Um sindicalista.
Bisol - Pois é, o
sindicalismo é neoliberal. O sindicalismo é capitalista. E nunca foi
generoso. Sempre foi de passar a perna no outro. É o lado mau que nós
tínhamos. Nós éramos sindicalistas. E os sindicatos sempre se comeram
entre si. Eles não tinham a preocupação da justiça social. O sindicato
fazia a classe ganhar mais. Sul21 – É a lógica corporativa. O senhor não acha que o governo Lula foi generoso?
Bisol – O
governo Lula? O mais generoso dos governos que nós tivemos. E o mais
produtivo também. Não estou falando mal de todos os outros. O
Kubitscheck foi um governo interessante também. Não gosto dele, mas o
governo Fernando Henrique tinha uma certa decência.
"É horrível ser político. É horrível. Tem que mentir" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – O senhor disse que não pedia votos.
Bisol –
Uma vez, estávamos num comício enorme lá em Juazeiro (Bahia). Uma
pobreza de sair chorando até esgotar o líquido. Uma imensa multidão. Um
comício espetacular. Aí eu bati nas costas do Lula e disse: “Lula,
duvido tu dizer a verdade”. “Como?” disse o Lula. “Duvido tu dizer pra
eles que tu não tem como garantir uma vida melhor do que a que eles
estão levando. E não é pra já”. E o Lula não me respondeu nada. Só
ficou me olhando como quem dissesse “Ah! Não vem com essa Bisol”. E,
realmente, a gente não tinha como dizer a verdade. É horrível ser
político. É horrível. Tem que mentir. Sul21 – Não dá para resolver os problemas em um passe de mágica.
Bisol -
É amanhã. Amanhã te darei a liberdade. Amanhã te darei a dignidade. Tu
tá mentindo. E é trágico. Fazer política é muito difícil. Precisa ser
um louco, indecente mesmo. E eu passei a vida fazendo discurso. “É
amanhã que nós vamos fazer”. Sul21 – O senhor acaba de falar da capacidade de comunicação
de Lula. Mas o senhor também tem esta fantástica capacidade de se
comunicar.
Bisol - É, eu era bom.
Sul21 – Quando vocês dois falavam, as pessoas ficavam vidradas.
Bisol - A gente fazia uma boa dupla.
Comício de apoio a Lula e Bisol. Juntos, dois grandes oradores. "A gente fazia uma boa dupla"
Sul21 – O senhor falava de improviso?
Bisol – Eu sempre fui um improvisador. Inclusive em palestras. Nunca preparei uma palestra. Nunca. Tudo improviso. Sul21 – O senhor ainda mantém contato com o Lula?
Bisol – Mantenho contato telefônico. Às vezes, ele me visita com o Olívio. E o pessoal da secretaria vem seguido aqui. Sul21 – Como o senhor está vendo o governo de Dilma Rousseff?
Bisol -
Conheço bem a Dilma como uma mulher poderosa, forte. Bem estruturada.
Mas tenho medo da doença dela. A doença dela não é brincadeira. Meu
irmão teve também. E eu não sei até onde ela pode enfrentar isso aí.
Ela tem uma vantagem: o Lula se desgastava emocionalmente, porque se
doava a todos, e buscava o êxtase máximo em cada oportunidade. Ela não.
Ela é bem sóbria. Talvez ela possa governar melhor que o Lula até.
"Dilma tem uma vantagem sobre Lula. Ela é bem sóbria" | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr
Sul21 – Fazer uma limpeza também…
Bisol - Puxa, se ela fizer… não é fácil, viu? Sul21 – O senhor acha que é possível fazer essa limpeza?
Bisol -
É uma pergunta que deve ser feita. Não tem jeito. Só há uma maneira:
tem que atirar o bebê junto com a água fria. Talvez ela consiga, mas
ela vai chegar a um vazio tremendo. Sul21 – A seu ver, qual é o grande mal da política brasileira?
Bisol - A ignorância.
Sul21 – E o PMDB?
Bisol - Bom, o PMDB. O que o PMDB defende? Sul21 – Cargos?
Bisol - Então? É brincadeira até. Mas, não é só o PMDB. São diversos partidos.
Manuela D'Ávila: "Ela é uma excelente candidata. Tem um certo fascínio" | Foto: Beto Oliveira/Agência Câmara
Sul21 – O excesso de partidos não prejudica o país, a governabilidade?
Bisol -
As negociatas são horríveis para sobreviver. Acho que tu tens razão.
Mas e aí? Restringir? Restringir já é um princípio antidemocrático. Mas
os pequenos partidos acabam incomodando. Não existe mais isso de “pelo
partido”. Eu fico olhando para a Manuela. Ela é uma excelente candidata.
Tem um certo fascínio. Isso para um político é uma coisa de louco. Se
ela tiver um partido atrás, meu Deus do céu, até onde ela vai? Mas o
partido comunista tá vazio. Nem sequer tem conhecimento dos novos
comunistas que acabei de falar. Eles nem sabem que existem novos
comunistas. Não lêem Alain Badiou e Slavoj Zizek. Não sabem que eles
existem. Eu não sei, o partido comunista é um dos mais vazios. Grande
partido era o PT mesmo. Sul21 – Era? Não é mais?
Bisol – Era sim. Não
é mais, de jeito nenhum. O PT tinha vertentes, origens sensacionais.
Uma mistura do que havia de bom no cristianismo com o que havia de bom
de ateus, uma mistura maravilhosa. E todo mundo com uma visão generosa
do futuro. Não tem mais jeito. Quer dizer, não tem mais jeito só no
sentido que eu digo: vamos esperar o evento, vamos esperar o
acontecimento. Sul21 – Quando começou esta mudança no PT?
Bisol -
Nos governos. Quando Lula perdeu a eleição de 89, ele sentou na casa
dele – e eu estava hospedado lá – e me disse: “Bisol, é a última
derrota”. E eu entendi claramente. Chega de ser esquerdista. “Vou
ganhar a próxima”. E ganhou. Teve que deixar de ser esquerdista.
"Lula me disse: “Bisol, é a última derrota” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Ele é pragmático.
Bisol - É sim. Só
que pra um governo adianta. Ele fez e conseguiu. Mas teve que negociar
pra comprar o Congresso. Nós não conseguimos acabar com isso. A coisa
mais negociável do Brasil é o Parlamento. Todo mundo compra. Todos os
governos compram. Não é uma novidade do Lula. Mas o Lula, quando disse
pra mim que não ia perder mais, ele sabia que ia ter que comprar os
caras. A gente entendia, eu entendia bem o Lula. Sul21 – E a Dilma? Está ou não está comprando o Congresso?
Bisol - A Dilma talvez não faça isso. Mas vamos ver, porque ela vai ser apertada. Sul21 – Dizem que uma das coisas que levou ao impeachment de Collor foi ele não ter negociado com o Congresso.
Bisol -
Pois é possível. Ele ia negociar com uma turma como a nossa? Não tinha
como (risos). Não tinha como. A turma do PT, por exemplo: os petistas
eram todos seres humanos absolutamente por cima dessas coisas, sem
nenhum interesse pessoal, realmente acreditando. Sul21 – Naquele momento, o PT era minoria.
Bisol -
Era minoria, mas era uma minoria forte. Os caras nos respeitavam. Meu
Deus, eu tinha um gabinete junto ao restaurante. O pessoal ia pro
restaurante e quando me via, ali na porta do meu gabinete, batia assim…
(o teu tá aqui)… Eu era ameaçado, diariamente, de morte. Não dava a
mínima. Nunca pedi segurança, nem nada. Sul21 – Ameaçado por outros parlamentares?
Bisol – O filho do Sarney era o que mais me ameaçava. O Zequinha que, agora, está no PV. Sul21 – Qual o político que o senhor mais admira ou admirou?
Bisol -
O político que eu mais admirei se chama Florestan Fernandes. Era uma
consciência cristalina, uma coragem simples, simples assim como um
regato deslizando. Espontâneo, e tudo era puro nele, tudo era verdade
nele. E não havia um momento de fraqueza daquela criatura. Passei todo
o meu tempo no Congresso – ele era deputado e eu, senador – sentado ao
lado dele nas reuniões do Congresso. E foi uma das melhores coisas que
eu fiz na minha vida. Aquela criatura realmente exemplar. E grande.
Moralmente grande.
Florestan Fernandes: "uma consciência cristalina, uma coragem simples"
Sul21 – Na política atual ainda há homens assim?
Bisol – O
interessante é o seguinte: quem aparecia não era importante. Era o
Ulysses Guimarães, um pobre diabo. Um homem que não sabia nada. Só
tinha esperteza. Entende o que eu quero dizer? Isso que é o duro na
vida. Sul21 – O Ulysses não tinha, obviamente, a cultura do Florestan, mas cumpriu um papel fundamental na Constituinte. Bisol - Digamos assim: o seu temperamento era de
mais atividade, num lugar onde a atividade tinha repercussão. Aquele
não era um lugar para aparecer a atividade do Florestan. Não estou
negando a importância do Ulysses; só estou dizendo que, se tenho que
viver junto com uma pessoa, prefiro viver junto com o Florestan. Seria
uma felicidade para mim viver ao lado de uma pessoa como o Florestan. E
vai ser um inferno se eu tiver que viver com um cara seco e
insignificante culturalmente como era o Ulysses.
"Seria um inferno ter que viver com um cara seco e insignificante culturalmente como o Ulysses Guimarães" | Foto: Senado
Sul21 – E o Sarney?
Bisol - O Sarney é marginal. Sul21 – E qual a sua avaliação sobre o PSOL?
Bisol – Tem gente boa lá, que eu gosto muito. Mas é um partido nascido do ressentimento, não pode dar certo. Sul21 – Não pode dar certo?
Bisol - Não, porque nasceu do ressentimento. Da mágoa, da briga interna. Sul21 – O PSDB não nasceu do ressentimento do PMDB? O PFL não nasceu do ressentimento com a ARENA?
Bisol – É possível. Mas, quem nasce do ressentimento não tem salvação. Sul21 – Mas, as ações políticas, muitas vezes, são baseadas nos ressentimentos.
Bisol – É. Por exemplo, a oposição sistemática é uma coisa desagradável. Sul21 – É uma coisa ressentida.
Bisol – Uma coisa medíocre, pesada. Eu ouvi, hoje, uma entrevista do Sérgio Guerra (presidente nacional do PSDB).
Meu Deus do céu, o cara é um cínico. Ele não tem nada a dizer, a não
ser, sistematicamente, desvalorizar o governo. Até podia ter sentido
isso aí, mas não tem nem fundamento o processo de desvalorização. É
horrível o cinismo. Muito cuidado com o cinismo, que é a ideologia do
mundo moderno. Sul21 – O senhor diria que, atualmente, há pouca revolta na sociedade?
Bisol –
É. Acabou a indignação. Onde é que ela está? A indignação é solitária;
ela não é mais compartilhada. No nosso PT, era indignação
compartilhada, convivida apaixonadamente.
"A indignação é solitária; ela não é mais compartilhada" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Será que não estamos vivendo um momento de mudança?
O partido político foi, talvez durante 100 anos, o grande veículo da
indignação e da transformação, mas será que não é uma forma que está
esgotada? Será que estamos formando cidadãos?
Bisol -
Cidadão é uma palavra neoliberal, sabe? “O sujeito é um cidadão”. O que
significa isso? Tem que ser um ser humano, em primeiro lugar. Ele tem
que desenvolver as suas potencialidades de amor. Tem que ter controle
de seus ódios, porque ele tem os seus ódios. Há pessoas aí – e está
cheio delas – que seriam boas pessoas, mas elas têm uma neurose e não
sabem que são neuróticas. E essa neurose vai trabalhando e as
transformando em más pessoas. A neurose é isso: liquida com o sujeito.
Quer dizer, o sujeito é bom, se ele é valioso, se ele é produtivo. Mas,
aquele círculo infernal e repetitivo da neurose acaba com a
generosidade e a criatividade do sujeito. Então, tem que ter muito
cuidado com essas coisas. Tem que levar a sério a humanidade e a sério
a humanidade dos outros também. E acabar com ilusões: “Ah! O amor ao
próximo”. Praticamente não existe amor ao próximo. O que existe – e a
psicanálise revela isso – é que o outro é sempre um abismo. Tu não
sabes quem ele é, não sabes o que ele é, não sabes até onde vai a
profundidade. O outro é sempre um susto. Eu sempre olho pros outros.
Estou falando, fazendo uma palestra, a pessoa está me ouvindo, eu olho,
observo bastante. Fico espantado: “Como será que estou acontecendo na
cabeça dessa criatura?” Eu fico louco simplesmente. Tu aconteces de
múltiplas maneiras. Não é de uma maneira só. Não é da maneira que tu
estás pensando. Tu estás acontecendo no outro das maneiras mais
diversas, menos da maneira que tu estás pensando. Sul21 – Mas, no momento em que o senhor se indignava e, como
político, lutava pela melhoria dos brasileiros, o senhor não estava
tendo amor ao próximo?
Bisol – Bem, não nego isso, que a
gente luta pelos outros também. O que eu digo é que o próximo sempre
assusta. É sempre um mistério, e tem forças e sentidos que te
ultrapassam sempre. E que não tem como não te assustar com o outro,
porque ele é um abismo pra ti. Tu tens que abstrair essa verdade pra
viver. Sul21 – O senhor está altamente filosófico. Na verdade, o que o senhor está dizendo é que a alteridade é um grande desafio.
Bisol – Puxa
se é. Dou um passo além, meio lacaniano. O Lacan dizia que se tu vais
procurar o centro da tua fantasia, o gestor da tua vida, o gestor do
teu gozo, tu não encontras o centro a não ser fora de ti. A maior
intimidade está fora de ti. Quer dizer, a primeira alteridade, talvez a
mais misteriosa, é a tua própria. É o teu eu. Sul21 – Falando em fantasia, qual foi ou qual é a sua grande fantasia?
Bisol – Acho
que a minha grande fantasia foi a política mesmo. Achar que um dia a
gente ia fazer uma sociedade partilhada e convivida. É uma baita
fantasia.
Sobre a Revolução Cubana: "Foi um evento, um acontecimento. Eles criaram o novo" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Os barbudos de Cuba não conseguiram essa sociedade partilhada?
Bisol -
Bom, eles tiveram, como em todas as revoluções, o seu momento. Um
momento maravilhoso. Foi um evento, um acontecimento. Eles criaram o
novo. Mas sustentar esse novo até agora, não tem registro. A gente fez
aqui uma síntese, desde o Cristianismo, a Revolução Francesa, a
Revolução Russa. Foi espetacular a Revolução Russa, a partir das
ideias. Não há nada mais próximo de Jesus Cristo do que Karl Marx. Foi
uma coisa espetacular. Fracasso total também. Mesmo assim, a gente tem
que fazer a revolução. Tem que estar sempre fazendo a revolução,
esperando o acontecimento pra se engajar e fazer. E criar o mundo
completamente novo. Sul21 – Talvez sejamos de uma geração que acreditou na
revolução. Talvez o grande segredo é que tem que existir milhares de
revoluções. Elas têm que estar sempre no processo, têm que estar sempre
acontecendo.
Bisol - Bom, então aí o capitalismo é o máximo. Nunca vi um sistema que produza tantas revoluções como o capitalismo. Sul21 – Mas, de certa forma, elas andam sempre na mesma
direção. A frase está lá no Manifesto. Marx diz que o capitalismo
revolucionou e moveu as forças produtivas.
Bisol - Tu vês
essa coisa chinesa de usar o comunismo, de usar o proletário pra
transformar a China na maior economia do mundo. Capitalista. E essa é a
maior lição do momento da vida. Sul21 – O senhor acredita que se possa fazer uma revolução que seja definitiva?
Bisol – Não.
Justamente, estou dizendo que é preciso estar atento, porque a única
maneira de ser sujeito, quer dizer, de ser si mesmo, é se engajar em
uma ação que vai trazer o novo, uma nova forma de vida, um novo modo de
pensar, um novo modo de sentir. Uma invenção artística, uma descoberta
cientifica, uma relação amorosa diferenciada. Isso é revolução. O
problema é não viver essas coisas como se não fosse. Aí tu vais viver
mediocremente. Sul21 – Como político, o senhor sofreu nas mãos da mídia, principalmente quando foi secretário de Segurança do governo Olívio.
Bisol –
Falando em mídia, a mídia hoje é um discurso em torno do dinheiro. O
que é a Globo? Gosto de futebol. Sou um sofredor. Sou gremista. Ouço a
Rádio Gaúcha, porque é a melhor. As outras são mais fraquinhas. Mas é
uma vergonha. Os caras são completamente colorados. É a ideia dominante
deles, o sentimento dominante deles. Eles são colorados. E se tu dizes
que eles são colorados, eles te chamam de paranoico. E tu não tens
chance de dizer pra eles: “Vem cá, se uma pessoa tem um ciúme e esse
ciúme é paranoico, pouco importa que seja verdade ou não”. Isto é, que
o ciúme tenha razão de ser, ou não tenha a razão de ser. Ele é
paranóico. Tem que ser tratado. É uma doença. A mídia não tem essa
visão. Você pega essa equipe da Rádio Gaúcha de futebol e eles falam
que são isentos. Alguns têm a decência de falar assim: “eu sou colorado
e tal, mas sou isento”. Os caras passam por cima de todo Freud, como se
fosse uma barbada ser isento. Sul21 – Isso vale, talvez com mais veemência, para a cobertura política.
Bisol – Muito
mais. Comecei com o futebol, porque é mais fácil de perceber, pelo
futebol, o que a mídia fez com o PT, no governo do Olívio. Não gosto de
falar, porque eu estava no governo. Parece que estou me defendendo, mas
eu não quero me defender disso aí. É tão estúpido que eu não quero me
defender. Entende o que eu quero dizer? Foi tão violento, tão estúpido,
tão grosseiro, que eu me recuso a ir a um debate me defender. Por que
vou me defender desses idiotas? Eu os considero uns irresponsáveis.
Considero uns caras que têm uma paixão chamada ignorância. A ignorância
é uma paixão. E a paixão da mídia moderna é a ignorância, manter a
ignorância. Isso é duro. E é duro, inclusive, de eu dizer pra vocês.
Quer dizer, eu tenho que me calar, porque não adianta mais nada dizer
isso aí. Não tem remédio. A coisa é definida.
"Foi
tão violento, tão estúpido, tão grosseiro, que eu me recuso a ir a um
debate me defender. Por que vou me defender desses idiotas? Eu os
considero uns irresponsáveis" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Mas, afinal, por que o senhor foi o mais visado do governo Olívio?
Bisol -
Na época, a Polícia Civil, mas principalmente a Polícia Militar do Rio
Grande do Sul, tinha um princípio: se um bandido matasse um policial,
eles não queriam saber de Justiça. Eles fariam a Justiça. Eles é que
matavam o cara. Aí cheguei eu de secretário, com essa minha cara e
disse: “Olha, isso está errado e não vai acontecer mais”. E aconteceu
três vezes no meu governo. Sul21 – Três vezes?
Bisol - Três vezes. E a
mídia sempre ficou do lado deles. O último caso foi daqueles dois
meninos que mataram uma brigadiana dentro de um ônibus, vocês lembram?
Eu consegui fazer um inquérito mais que espetacular. Ficou a verdade
desnudada completamente. Aí eles foram desfazendo aos pouquinhos,
depois que eu já não era mais secretário, e no outro dia os caras foram
absolvidos. E saiu na Zero Hora uma notícia assim, deixando bem claro
que era o fim da minha perseguição. Eu era um perseguidor. Sul21 – Perseguidor dos policiais?
Bisol -
Perseguidor dos policiais. Eu dizia que a Polícia Civil era mais
corrupta que bandido. Eu dizia mesmo. Meu irmão era delegado de
polícia. Eu estava falando com conhecimento profundo, legal. Só que o
banditismo da polícia é difícil de provar. Mas também uma vez – vou
fazer uma mistura danada – eles me levaram lá para a Assembleia e
quiseram me cercar. Eu fiz um jogo. A certa altura da inquisição deles,
falei: “Olha, vamos fazer o seguinte: vou dizer todos os nomes dos que
estão neste recinto e envolvidos em complicações policiais. Não que eu
entenda que eles estejam, realmente, comprometidos, mas estão
envolvidos, (seus nomes) apareceram, e, de alguma forma, ficaram
suspeitos”. Talvez vocês não se lembrem disso: deu uma confusão lá
dentro daquela Assembleia! Eles começaram a falar ao mesmo tempo, a se
confundir, a se agredir. Eu me levantei, fui embora e deixei-os falando
sozinhos. Sul21 – Naquela época, o senhor também era acusado de dar força para o bandido e não para a polícia.
Bisol – É
porque peguei uma série de trabalhos da ONU sobre o uso da arma de
polícias, fiz um estudo de tudo o que havia sobre esse assunto e fiz
uma publicação para eles (policiais), explicando como não se usa a
arma, a não ser em caso de extrema necessidade. E eles ficaram loucos.
O uso da arma é a glória para eles. E a mídia ficou do lado deles. E,
agora, estão aí debatendo os excessos policiais. Mas, ninguém se lembra
que eu tentei, oportunamente, segurar esse processo.
José Paulo Bisol vive em meio aos livros, afastado da política | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – A reação corporativa é muito forte. E a mídia tende, de uma maneira geral, a defender o status quo.
Bisol – Nesse
caso, o problema é que a informação policial é uma preciosidade para a
mídia. Então, eles estão sempre bem relacionados. Delegados de polícia
e repórteres encarregados dessa pauta estão bem relacionados. Eu vou
dizer uma coisa: tem grandes delegados de polícia no Brasil, mas com
uma boa parte não dá pra fazer amizades. Sul21 – Quem mais bateu no senhor foi a RBS. E o senhor
tinha sido um grande nome da RBS. Como se explica esta perseguição ao
senhor e ao seu trabalho?
Bisol - Bom, quando o Olívio se
elegeu, passou em branco uma coisa. Ninguém falou, ninguém observou.
Uma coisa que tinha profundidade e que era um bom tema midiático. Quer
dizer, os caras se organizaram pra acabar com a possibilidade de um
governo de esquerda no Rio Grande do Sul. Um ex-secretário de
segurança, falecido, e eu vou respeitá-lo porque ele era uma boa
pessoa. Ele era do PMDB.
"Olívio Dutra é uma das pessoas mais honestas e limpas que eu conheci em toda a minha vida" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Quem era?
Bisol – Não interessa o
nome. Um amigo íntimo meu, de uma família tradicional de juristas do
Rio Grande do Sul veio me avisar: “Bisol, os caras vão acabar contigo”.
Isso muito antes de eu assumir. Porque esse secretário de segurança do
PMDB estava visitando os coronéis e os delegados. Era uma comissão pra
fazer a luta contra a possibilidade marxista do coitado do governo do
Olívio, que é uma das pessoas mais honestas e limpas que eu conheci em
toda a minha vida. O Olívio é incrivelmente cristalino, transparente.
Eu acho que vocês sabem disso. E os caras fizeram isso. E a chave, o
homem misterioso, oculto (era eu). Os militares sempre tiveram essa
mania comigo e eu não tinha nada, não articulava nada. Mas eles achavam
que eu articulava e puseram na cabeça que eu era o homem mais perigoso.
Mas não só por eu ser o homem mais perigoso, mas principalmente por eu
ser o ponto mais fraco de um governo, que é a Segurança. Já antes do
governo Olívio a segurança era um sério problema pra população, que
estava começando a observar que a criminalidade crescia. Sul21 – Há coisas sobre as quais não se fala. Lembro que o
senhor falava uma coisa, que eu falava frequentemente: “Se meus filhos
estivessem passando fome, com certeza, iria assaltar para dar comida a
eles”.
Bisol - Mas claro… Sul21 – Como o senhor fala isso na mídia, como secretário, teve grande repercussão, caiu o mundo.
Bisol – O
que eu queria? Queria que as pessoas se dessem conta de que o problema
não é um problema extra-humano. É um problema do ser humano. Se a gente
não se dá conta disso, não resolve.
"Qualquer instituição que tu sacudas um pouco começa a cair os pedaços" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Voltando à pergunta sobre a RBS. Por que, afinal, a RBS liderou essa campanha contra o senhor?
Bisol -
Bom, isso é fácil de responder. Eu tinha sofrido uma perseguição da RBS
antes, não só da RBS mas de outras mídias, que inventaram uma história
de uma emenda (ao Orçamento), que eu fiz e que seria corrupta, que
seria no meu interesse. É claro que eu fui ingênuo nisso aí. Mas, a
verdade é que eu, por escrito, pedi à Justiça que abrisse um inquérito,
logo que eles começaram a falar. Abrisse um inquérito e dissesse se
havia algum problema. E o inquérito foi feito, com acompanhamento do
Ministério Publico. O delegado chegou à conclusão de que não havia
nada. O MP deu o seu parecer, dirigindo-se ao magistrado, de que não
havia nada e o magistrado arquivou o inquérito, dizendo que “não há
nada que possa incriminar José Paulo Bisol”. Esse inquérito foi feito
logo no início para acabar com aquele negócio. Vocês sabiam? Sul21 – Isso era 1994. O senhor está falando de quando era
candidato a vice-presidente na chapa do Lula e foi acusado de
apresentar emenda ao Orçamento para beneficiar o município de Buritis,
onde o senhor teria uma fazenda. É isso?
Bisol – Isso. Sul21 – O resultado da Justiça demorou 10 anos para sair?
Bisol –
Não. O da Justiça saiu logo. Dez anos depois saíram as ações de
indenização. Só uma, porque as outras o pessoal não me pagou até agora.
Eu tenho um crédito que me transformaria num cara riquíssimo. Por
exemplo, o Jornal do Brasil não me pagou. Chega a dois milhões e meio,
três milhões. E não vai me pagar nunca. A única que me pagou foi a RBS,
mas o ódio ficou profundo. Sul21 – A marcação decorre disso? Desta ação?
Bisol -
Quando eu era secretário (de Segurança), eles já tinham me indenizado.
E estavam com uma raiva mortal, porque tiveram uma derrota. Quando eles
estavam fazendo a minha destruição moral, eu disse numa entrevista:
“olha, isso é falso, e eu posso ganhar uma fortuna de vocês”. Eu disse
na televisão, pra todo mundo ouvir. E eles deram risada. E eu ganhei a
ação. Foi a maior ação de indenização. Essa casa aqui foi construída
com esse dinheiro.
"Ganhei os processos pelos três crimes contra a honra" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Chegou a ter audiência de conciliação?
Bisol – A
juíza queria a conciliação. Eu disse: “Não quero nenhum tostão. Só
quero que se faça a metragem dos espaços utilizados no jornal e que o
jornal da RBS me dê espaço pra mostrar que tudo era mentira”. E a RBS
não aceitou esse acordo. A Juíza se deu conta de que eu tinha razão. Sul21 – O senhor ganhou por injúria, difamação…
Bisol –
Os três crimes contra a honra (calúnia, injúria e difamação). Do Jornal
do Brasil, ganhei até mais. Só que eles não me pagaram. E eu não fiz
muitas ações. Se eu quisesse poderia ter feito umas dez ações. Sul21 – O senhor processou o JB, a RBS e qual outro órgão?
Bisol – Um jornal de São Paulo. A Justiça de São Paulo é mesquinha pra chuchu: me deram uma coisinha de nada. Sul21 – As revistas não?
Bisol – Não. Contra a
Istoé me deu vontade de entrar, mas eu desisti. Contra a IstoÉ, o que
me deixou muito magoado foi que eu sempre escrevi poesia, desde que era
um garotinho. Desde o quarto ano primário. Inclusive tenho um livro
(Sim à Vida, publicado pela Imprensa Universitária, em 1957). E eu
tinha uma prima que tinha um filhinho, de um aninho, e escrevi um poema
pra esse menino. Então, era um poema de amor, de encantamento por uma
criança masculina. E os caras da IstoÉ publicaram o poema como prova de
que eu era homossexual. Mas me deu uma repugnância, assim… E também
muita tristeza. Eu não tenho preconceitos. Mas também não tenho nada,
histórico algum de homossexualidade. Mas eu tenho uma gesticulação,
talvez um pouco afeminada, é possível (risos). Depois de Freud, a gente
tem que saber algumas coisas.
"Eu adoro a vida. Só que eu me meti no meio dos livros" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – O senhor ficou um pouco depressivo devido a tudo que passou?
Bisol –
Não. Eu adoro a vida. Só que eu me meti no meio dos livros. Dá a
impressão de que sou depressivo. Mas eu não, eu gosto da vida. Eu
tomava meu vinho, agora não posso por causa da doença. Mas eu tomava
meu bom vinho, eu gosto de vinho. Sul21 – O senhor diz que está doente. O que o senhor tem?
Bisol - Tenho diabetes, uma doença horrorosa. Sul21 – Mas é possível conviver com ela.
Bisol – Olha,
não é muito fácil. Tenho uma neuropatia que é uma constante dor nos
dois pés. Tenho problemas para sair de casa, viajar, porque meu
intestino se desregulariza facilmente. Uns problemas chatos. Tive que
fazer mais de uma cirurgia. Fiz mais de 30 cirurgias na minha vida. Sul21 – Devido ao diabetes?
Bisol – Cirurgias
ao acaso, por ter nascido pra fazer cirurgia. A última foi do quadril
e, até agora, não estou recuperado. Fiquei muito fraco. Mas deprimido,
deprimido, de jeito nenhum, porque sou um pouco realista e isso dá uma
sensação de pessimismo. Realmente, não sou um cântico de glorificação
da vida do ser humano. Sul21 – Mas o senhor faria de novo tudo o que já fez na vida?
Bisol -
Faria. Faria com paixão, como sempre fiz tudo. E com bastante coragem,
se me permite dizer. Quer dizer, eu não tive medo de ser vaiado, medo
de “não, não vou dizer isso”. Não, eu disse. Vocês sabem disso. Sul21 – O senhor não tem autocensura.
Bisol -
Superego? Superego é uma coisa terrível, mas eu não tenho não. Mas,
acho que sou suficientemente inteligente para saber avaliar o que estou
fazendo. O que não tenho é medo. Isso é uma coisa que não tenho. Nunca
tive. Sul21 – Estávamos falando de Segurança. O senhor diria que a Polícia Federal, atualmente, está …
Bisol – Espetacular. É uma das melhores instituições desse país. Oxalá a Justiça tivesse evoluído como a Polícia Federal.
Sul21 – A Justiça não evoluiu?
Bisol – Não.
O Direito ficou meio escanteado. Às vezes, ligo a televisão e fico
olhando os julgamentos do Supremo Tribunal Federal. Eles são
completamente fora da realidade. Eles discutem aqueles princípios,
aquelas coisas, como se aquilo tivesse existência ainda. Não tem
existência. Vou lembrar um caso: o da punição dos homens públicos, sem
esperar que a lei passasse um ano.
Sobre a Lei da Ficha Limpa: "Uma novidade historicamente necessária" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 — O senhor está falando da Lei da Ficha Limpa.
Bisol – É.
Era alguma coisa com cheiro de novo. E o novo tem dificuldades de
emergir. Todo brasileiro decente tinha certeza que você estava
solidário com aquilo. Quem é que não ia ser solidário com aquilo? Tava
todo mundo do lado daquilo. Aí chega o Direito com seus velhos
princípios. Seria simples pra chuchu fazer uma elaboração teórica,
inovadora, revolucionária e justificar. Simples. Pode deixar comigo. Se
estão com dificuldades, eu faço uma elaboração filosófica, jurídica,
espetacular, dizendo: “é uma novidade”. Uma novidade historicamente
necessária. Socialmente necessária. Culturalmente necessária.
Eticamente necessária. Não é fácil fazer? E os caras, com os velhos
princípios jurídicos, mataram a questão. Gente boa matou… Sul21 – Há quem diga que o Supremo, em algumas questões
comportamentais, tem inovado, tem sido revolucionário até. Um exemplo é
o reconhecimento da união homoafetiva. Mas, nas questões, vamos dizer,
políticas, e que têm a ver com a propriedade é conservador.
Bisol - É, eu não tinha visto essa observação, mas me parece, a principio, que ela é verdadeira. Sul21 – Mas, as relações com os outros poderes não influencia o voto do Supremo?
Bisol - Parlamentarismo. Não é a maior farsa da história? Não é o ponto crucial do fracasso da democracia? Sul21 – O parlamentarismo?
Bisol – É, o
Congresso. Não só aqui, mas em qualquer lugar. E isso é triste e duro
de dizer. O lugar mais podre, onde há mais vulgaridade, mais baixaria.
Eu me lembro de quando estava lá dentro. Houve um momento em que eu
disse assim: “Mas vem cá, onde é que estão as grandes pessoas aqui?” Aí
eu comecei a me perguntar. E tinha duas grandes pessoas no Congresso: o
Florestan Fernandes e aquele do PDT, o Darcy Ribeiro. Grandes
moralmente. Grandes como científicos, com postura, com coragem e com
inteligência e criatividade. O resto era de uma mediocridade! Uma coisa
assim, de baixo calão. Com os interesses mais vis e tal. E agora a
gente está vendo isso aí. Eu me lembro que quando fizemos os primeiros
grandes inquéritos parlamentares – hoje, sou contra os inquéritos
parlamentares, porque o Parlamento não tem como fazer inquérito – e
tentamos fazer direito, o que nós descobrimos foi incrível, só que
fugia do assunto. Sul21 – Foi aquela CPI dos anões do Orçamento?
Bisol -
O que nós descobrimos naquela CPI vocês não vão nem imaginar. Isso que
estourou agora em Brasília, do governador de Brasília (José Roberto
Arruda), nós descobrimos naquela época (em 1993, quando houve a CPI,
Arruda fazia parte do governo de Joaquim Roriz no Distrito Federal).
Nós sabíamos que o cara fazia corrupção e como ele fazia. E ficou lá
arquivado, porque não era o assunto (da CPI). Sul21 – O senhor voltaria ao Parlamento? Bisol - Só se fosse para brigar pelo novo. Sul21 – O senhor acha que estaria sozinho nessa briga? Ou teria companheiros?
Bisol - Não. Sempre tem loucos. Louco nunca é louco sozinho. Sul21 – Qual a avaliação que o senhor faz da sua atuação na Constituinte? Lá o senhor não foi um louco sozinho.
Bisol –
Vou dar um exemplo para que tenhas uma ideia do que eu fiz. Essa
Constituinte foi uma coisa de louco. Pra sair do meu terreno, pra não
ficar me autoelogiando: a Constituinte criou o Sistema Único de Saúde.
Ideia genial. Naquela luta entre o chamado centro e a esquerda, a gente
conseguiu criar o SUS. Quer dizer, saúde para os pobres. Não funciona.
Porque os governos não querem que funcione. E porque a indústria, o
capitalismo farmacêutico, os médicos não estão interessados em que
funcione. Mas, se funcionasse seria uma coisa extraordinária pra nós.
Então, só isso já mostra que a mentalidade da maioria daquela
Constituinte foi uma das melhores mentalidades que já passou por aquele
Congresso. Construíram essa Constituição, que é valiosa. É moderna. E é
corajosa. Ela avança bastante. Ela faz muita confusão também, em
virtude da guerra interna que havia. Mas criaram-se coisas
maravilhosas. E eu tive a felicidade de ser o relator dos primeiros
capítulos. Bom, eu acho que a gente conseguiu consolidar os grandes
princípios jurídicos da humanidade. Só que eles não funcionam mais.
Esse é o problema. São abstratos. Fora da realidade. Sul21 – Precisamos de uma nova Constituição?
Bisol – Não. Não adianta nada. Precisamos de uma outra anima. Sul21 – O senhor foi responsável pelo capítulo dos direitos
humanos, dos direitos fundamentais. O senhor acredita que estes
direitos vão funcionar algum dia?
Bisol - O Brasil é um
país onde a polícia tortura muito. A tortura é o máximo da miséria
humana. É uma coisa insuportável a ideia de tortura. Ela destroi a
pessoa que tortura e destroi o torturado. Fico espantado quando leio
que, nos Estados Unidos, dão uma injeção no coração dos muçulmanos,
desse pessoal do 11 de setembro. Os Estados Unidos eram realmente uma
democracia interessante. E acabaram com a democracia. Eles criaram
aquela prisão de Guantánamo e aquela obsessão com os mulçumanos. O que
é isso? Sul21 – O senhor acha que o governo Barack Obama não correspondeu às expectativas?
Bisol - Bah! É uma das maiores decepções da minha vida. Ele é um Bush com a pele favorável, digamos assim. Sul21 – Em seu primeiro pronunciamento sobre os distúrbios
ocorridos na Inglaterra, o primeiro-ministro David Cameron disse mais
ou menos assim: “Os jovens que têm condições de fazer esses tumultos,
também têm condições de serem responsabilizados”. Isso remete à lei
brasileira de proteção à infância e à adolescência, o ECA. O senhor é a
favor de mudar o ECA, de reduzir a idade penal?
Bisol -
Eu acho que isso não é um assunto importante, porque a punição não
arruma nada. Não ajuda nada. São outras coisas que temos que mudar. É
não deixar chegar lá. É a educação. Nós temos que gastar tudo na
educação das nossas crianças. Mas não só dos nossos filhos. De todas as
crianças. Então, quando pune, nem tem lugar pra botar na cadeia. Aí tem
que soltar antes. Fico impressionado com a paixão primitiva da mídia. A
mídia sempre é a favor de aumentar a punição. Isso nunca resolveu nada.
"Há
uma coisa que ninguém pode dizer – e que eu não posso suportar - é que
eu me interesso por dinheiro" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Bem, acho que a estas alturas cabe uma pergunta: por que o senhor abandonou a política?
Bisol -
Bom, eu saí da política porque eu fui muito perseguido, muito judiado.
É difícil aguentar. É muita mentira em torno de ti, entendeu? Se há uma
coisa que ninguém pode dizer – e que eu não posso suportar – é que eu
me interesso por dinheiro. Eu nunca tive interesse. Não sei o quanto
ganho, não vou a banco, tem que ter alguém na casa que cuide do
dinheiro pra mim, porque eu estou sempre pelado. Quer dizer, dinheiro é
uma coisa que me dá um pouco de nojo. Tenho resistência. E foi
justamente por aí que eles foram me atacar, como se eu estivesse
interessado em dinheiro. Tenho um monte de defeitos, mas esse eu não
tenho. Isso me amargurou muito. Sul21 – O senhor não achava que devia lutar contra isso?
Bisol - Olha, não tem como lutar contra a difamação por parte da mídia. Até hoje boa parte das pessoas acreditam nisso. Não tem como.
Sul21 – Qual o seu sentimento em relação a estes ataques? Revolta? Tristeza?
Bisol -
Muita tristeza. Nenhuma revolta, nenhum ressentimento. Talvez um pouco
de ressentimento. Talvez. Um pouco de resistência à pessoa do… Como é o
nome daquele jornalista do eixo Rio-São Paulo, que morou nos Estados
Unidos? Sul21 – O Paulo Francis?
Bisol - Paulo
Francis! O cara que, inclusive, tinha cultura. Mas ele era um cara
cruel, um sadomasoquista. Nem sei nada da vida dele, mas eu imagino
que, pra ser como ele era, se o Freud tem alguma razão, a mãe dele
substituiu o pai na autoridade familiar. Ele era um sadomasoquista.
Quer dizer, ele gostava de gerar sofrimento pra si. E esse cara me
chamava de ‘Bichol’, sem nenhuma razão. O meu melhor amigo – o escritor
Paulo Hecker Filho – era amigo dele. Quer dizer, ele não podia ignorar
quem eu era e tal. O Paulo Francis era um cara baixo, de maus
sentimentos. E era um cara culto, inteligente.
Paulo Francis: "ele gostava de gerar sofrimento"
Sul21 – O senhor costuma dizer que não é importante, mas
estamos vendo aqui a medalha do Mérito Farroupilha que o senhor recebeu
da Assembleia. Bisol – Eu não acho que não sou importante.
Tenho certeza de que não sou importante. Até posso ter sido em um
determinado momento, ter tido uma certa relevância, uma certa
significação. Tive. Acho que fui capaz de me engajar na luta, mas eu
não posso, em hipótese nenhuma, pensar que eu sou importante. E não é
humildade isso. É apenas consciência. Sul21 – Mas o senhor não pode negar que viveu a vida com intensidade, que contribuiu para …
Bisol - Não, eu tenho esse respeito por mim. Sul21 – O senhor deu uma contribuição para o mundo.
Bisol -
Acho que sim. Nem acho, tenho certeza. Mas isso não significa que eu
seja relevante, não. Não é que eu não queira ser relevante, é
simplesmente que eu constato que não sou. Não é nada de humildade, nem
nada. Não. Eu tenho minha autoestima e tudo. Não estou preocupado em
ser modesto. Só não quero fugir de um certo realismo: com 83 anos,
estou mais perto da morte do que antes. E a morte é importante pra mim.
Eu gostaria de viver um pouco mais. Mas, eu percebo que não tenho essa
importância. Já posso ir e ninguém vai sentir falta.
Sobre a homenagem que recebeu na Assembleia: "Achei que essa medalha foi justa" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21— Mas esta medalha lhe mostrou que o senhor tem importância na vida política gaúcha?
Bisol -
Achei que essa medalha foi justa. Só uma pessoa muito boa de coração,
que sabia que a RBS não publicaria uma linha – e para ele, como
político, não serviria para nada me dar essa medalha – me daria a
medalha. Ele (o deputado petista Elvino Bohn Gass) me deu e isso é
muito valioso. Eu digo que não sou importante no sentido de que já
passei o período em que eu tinha peso. Sul21 – Mudando de assunto: tem aquela máxima que diz: “se
ficar o bicho pega, se correr o bicho come”. O senhor também é
criticado por morar aqui em Osório, em um condomínio que dizem ser de
luxo, afastado de tudo.
Bisol – É. Vim pra cá exatamente
por isso. A casa, eu fiz com o dinheiro da RBS, tenho que confessar.
Foi um dinheiro bom, bastante dinheiro. E eu queria me afastar de um
mundo que me perseguira, que cometera sérias injustiças comigo e eu já
tava cansado. E o condomínio não é luxuoso. O condomínio é um belo
condomínio, no sentido de que tem áreas verdes espetaculares. E água
também: a lagoa ali. Mas o condomínio não tem nenhum esgoto. Só que é
uma calma, uma tranquilidade, cercada de pássaros. Muito interessante.
E a esquerda tem direito em ser rica também. Eu não sou rico, mas qual
é a bobagem essa de que o cara tem que ser pobre pra ser de esquerda?
Isso é bem burguês mesmo (risos).
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