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Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

A paternidade que me constitui

A paternidade me transformou profundamente. Muitas coisas se tornaram mais difíceis depois que Alice entrou na minha vida. Tudo mudou de patamar, todas as prioridades foram rearrumadas. Mesmo nos momentos que nada parece ter muito sentido em minha vida, Alice faz sentido. Pleno e suficiente.
Viajar se tornou uma tarefa quase impossível para mim depois que fui pai. A primeira vez que viajei, passei quatro dias - com o coração na mão -, em Curitiba. Nessa viagem, Alice chamou papai pela primeira vez. E eu estava a milhares de quilômetros.

Mês passado fui salvo por uma recomendação médica de passar os mesmos quatro dias longe, dessa vez em Porto Alegre.

Quando se aproxima o momento de minhas viagens sem Alice, a aflição cresce em proporção direta. De modo semelhante me senti quando, no início do ano, Alice e a mãe passaram duas semanas no Rio.

Na manhã desde sábado, quando tomava café antes de ir à reunião da Comissão Organizadora Nacional em São Paulo, assistia uma boa reportagem de Carlos Dornelles na Record sobre os moradores solitários em São Paulo. Dornelles destacou um personagem, gaúcho, que mora sozinho e trabalha em São Paulo. O gaúcho deixa claro que sua intenção é voltar para casa em uma situação de vida melhor do que chegou em São Paulo. E diz que um tesouro o estimula: sua filha de seis anos. Há três ele não a vê.

A cena me emocionou. Tive de esconder dos outros hóspedes a minha emoção por pudor e vergonha. A saudade de Alice me consumiu. Não sei como poderia resistir se estivesse no lugar daquele homem.

Comentários

  1. Não há idade pra sentirmos a saudade e a falta das nossas criações. Estou há milhares de quilometros dos meus filhos e agora extendidos em netos...Nada nos preenche mais do que o calor e o doce som das palavras quando nos abraçam e nos chamam, no meu caso:..."mãe que saudade...que bom que vc veio vovó". A dor da distancia não tem sentido, não tem como descrevê-la...apenas nos consumimos em apertos no coração.
    Nos tornamos inexorávelmente eternos com a maternidade /paternidade. Mesmo que a necessidade das distâncias territoriais existam,estes laços jamais se rompem...são nossas partes, são nossas extensões repartidas em sementes que crescem e dão flores de nós.

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