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Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

1964, Uma Ferida

Por Dailor Varela, na Carta Potiguar:

Faz tempo que penso em fazer “alguma coisa” sobre o nefasto golpe militar de 64, uma ferida que de tempos em tempos sangra dentro de mim. Escrever um livro? Talvez não.  Já foram escritos muitos livros sobre o assunto. Um deles de autoria da minha querida amiga Mailde Pinto que sofreu o pesadelo provocado pelos “gorilas”. Talvez eu termine optando por um livro de poemas visuais que teria como título “1964”. Já tenho algumas idéias e algum material.
Antes do golpe eu trabalhava na Praça da Cultura, uma realização do então prefeito Djalma Maranhão levando cultura ao povo. Paulo de Tarso Correia de Melo trabalhava comigo neste projeto. Ironia. Foi nesta época de utopias socialistas, que Paulo de Tarso, que sempre foi uma mente brilhante me ensinou a amar Faulkner. Isso numa época em que eu tinha ódio a qualquer coisa norte-americana.
Veio o golpe e todos os sonhos caíram. Djalma Maranhão, um apaixonado pelo povo e o potiguar mais doente de paixão por Natal que já tive o prazer de conhecer, morreu de banzo exilado no Uruguai. Os milicos tomaram o poder, amigos sendo presos e torturados. Eu caí numa depressão profunda e dolorida. Acreditava na luta da esquerda por um novo Brasil. Hoje fica difícil acreditar nesta luta quando um ex-guerrilheiro como José Dirceu envergonhou o país num episódio que todo o país conhece. Eu freqüentava muito a casa do Dr. Vulpiano Cavalcante histórico comunista que me falava sempre dos seus sonhos e utopias. Aprendi muito com ele, na varanda da sua casa olhando este mágico mar de Natal.
Tenho hoje uma amiga, em Monteiro Lobato, SP que participou da Guerrilha do Araguaia. Uma mulher com muitas marcas e lutas. Às vezes vemos e lemos noticias do Brasil de hoje. Um país angustiante. Minha filha Maíra, que não viveu na época do golpe me pergunta sempre sobre o que aconteceu em 1964. Outro dia sentado na minha rede nordestina expliquei para ela o que foi este período de sangue e tortura. Chorei.

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