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Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

Uma ética parcial

Alguns anos atrás, quando eu era frequente participante em reuniões de oração em diversas igrejas evangélicas da cidade de Natal (RN), testemunhei uma cena que me foi bem marcante.
Em uma reunião de círculo de oração de uma Assembleia de Deus na cidade, um senhor foi testemunhar um feito que Deus havia realizado em sua vida. Em uma das avenidas mais movimentadas da cidade, ele parou em fila dupla enquanto a esposa resolvia alguma coisa em um estabelecimento comercial. Antes de sair de casa, não tinha um centavo, mas seu filho terminou por dar-lhe uma nota de dez reais. O homem agradecia a Deus porque aquela nota estava no painel do carro quando o guarda de trânsito chegou para lhe aplicar a multa. Deus havia providenciado a propina do policial.
Essa mesma ética esteve presente naquela cena, gravada, do escândalo do Mensalão do DEM, quando os evangélicos envolvidos reuniram-se para orar. Era a oração da propina. Dessa vez, bem mais que dez reais.
Dias atrás o Brasil inteiro viu as prisões de policiais militares do Rio Grande do Norte suspeitos no envolvimento em vários crimes. As imagens gravadas pela Operação Mall foram destaque em vários jornais do país e mostram alguns PMs em prática explícita de delitos.
Evidentemente, todos são inocentes até que se prove e julgue o contrário. Mas foi chocante para mim ler no twitter ontem as manifestações de uma das advogadas do grupo, louvando ao seu Deus pelo habeas corpus concedido aos presos.
Claro que eles têm direito à plena defesa e a bons advogados. É claro também que podem ser inocentes e inocentados. No entanto, em casos como esses, manifesta-se uma ética tão parcial quanto a dos exemplos acima, quando lemos um religioso celebrar a libertação de alguém sobre quem pesam muitas evidências de que é culpado.
Além disso, a advogada cobrou os meios de comunicação pela ampla repercussão que deram às prisões, mas "a midia, com a mesma enfase, [devia] informar a sociedade que o cidadao foi absolvido". Porém, habeas corpus não é absolvição. É apenas uma possibilidade de que a prisão preventiva já cumpriu seu papel ou que já se durou mais tempo do que permitido.
Ética evangélica assim é testemunho contra a fé cristã. Sempre.

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