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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Sobre [a hipocrisia do] voto de Jobim

Ano passado, tínhamos uma opção bem clara nas eleições presidenciais: de um lado, a continuidade do projeto de governo de Lula, que promoveu avanços inegáveis no país - em que pese não ter sido perfeito - e do outro, a escolha de um novo projeto, representado pelos candidatos de oposição.
Desde o início ficou muito claro que o projeto mais diametralmente oposto ao projeto do governo era a proposta tucana do candidato José Serra, por muitos fatores, entre os quais o resgate de discurso e programa da direita udenista do país.  Sentíamos com clareza a ameaça à continuidade de um projeto político que fez bem ao Brasil e a opção clara para continuar avançando era o voto em Dilma.
Não votei em Dilma por simpatia a ela, mas como forma de garantir que um projeto de país vitorioso ia continuar sendo tocado no governo.  Tanto é verdade isso, que não me furtei a reconhecer o retrocesso do atual governo em tantas áreas sensíveis em que desejávamos continuidade e a entender que esse afastamento das políticas do governo Lula termina por me afastar do governo Dilma.
Se ano passado não concordasse com os rumos e o projeto do governo, votaria em qualquer candidato da oposição.  Se tivesse vertido à direita o curso ideológico de minha vida, meu voto claramente iria para Serra - e não organizaria um comitê evangélico em Natal para defender o governo e o voto em Dilma.
É por isso que considero muito grave a declaração de voto do ministro da defesa Nelson Jobim (PMDB).  Jobim afirma em entrevista à Folha hoje que votou em Serra na eleição presidencial do ano passado.  Jobim era o ministro da defesa no governo Lula e permaneceu no cargo no governo Dilma.  Declarando seu voto assim é como se o ministro admitisse que não concordava com os rumos e o projeto de país do governo ao qual servia - escolheu votar no candidato de oposição que melhor representava o seu contraponto.  Se não concordava, votou em Serra.  Se não concordava, não devia ter aceitado o pedido de continuar ministro.  Aliás, não devia nem mais ser ministro do governo Lula.  Isso é descompromisso e traição política.  Além de hipocrisia e falsidade: pelo status e pelo cargo, seguir ministro num projeto em que não se acredita.

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