Pular para o conteúdo principal

Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

As drogas e a morte de Amy Winehouse

Queria entender uma coisa, sinceramente: o que a morte de Amy Winehouse tem a ver com a descriminalização das drogas?  Dizendo melhor: a morte de um dependente químico por overdose é argumento válido contra a descriminalização das drogas?
Quem interliga os dois pontos comete o pecado de construir um argumento muito frágil.  Afinal, só para começo de conversa, Amy não vivia em um lugar em que o comércio de drogas fosse legal.  Ou seja, ela morreu de overdose em um contexto em que as drogas são ilícitas.  A culpa de ter se tornado dependente e ter vindo a falecer não pode, com honestidade intelectual, ser vinculada a quem promove uma Marcha da Maconha, por exemplo.
Quando se fala em descriminalizar as drogas está se pensando em política de redução de danos porque se tem clareza do que mortes por droga apontam com clareza: drogas não são questão de polícia, mas de saúde.  Descriminalizar as drogas anda de par com uma política de conscientização de riscos, estímulo a recuperação de dependentes, enfim, um amplo espectro de políticas de saúde pública tendo esse público como alvo.  Com ou sem descriminalização as cracolândias existirão.  E não chegarão ao fim por repressão policial.  Exemplo de política de saúde eficiente pode ser dado pelos CAPS AD e pelos consultórios de rua.
A dificuldade para a descriminalização das drogas avance em países como o nosso não são morais, políticos ou policiais.  São financeiros.  O tráfico de drogas é um dos negócios mais rentáveis do mundo, andando ao lado do tráfico de armas.  Existem muitos interesses econômicos em jogo que se colocariam em risco com uma postura assim.  Quem fatura no tráfico não é o gerente de um morro carioca.  O dinheiro irriga contas em volumes muito maiores e muito acima dos morros do Rio ou das vielas de Felipe Camarão e Mãe Luiza.
O modo de funcionamento do negócio tráfico de drogas e crime organizado foi mostrado de uma maneira simplificada mas real em Tropa de Elite 2.  Se no primeiro filme, Nascimento e os espectadores tinham uma noção inocente de que o consumidor de drogas é o principal - se não único - financiador do tráfico e do crime organizado, Tropa 2 deixa claro que o Sistema é muito maior.
Beira a inocência associar o consumidor de drogas, as marchas pela sua legalização à morte de Amy Winehouse - ou de qualquer outro dependente.  Inclusive porque soa como se gente, tal qual meu pai, não morresse por sua dependência de drogas lícitas como o álcool, ou o cigarro.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas