Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...
Não me lembro ao certo como conheci Raimundo Sodré e o seu praticamente único sucesso, A massa (em parceria com o professor Jorge Portugal). Sei que estava na minha temporada soteropolitana e que essa foi, certamente, a última das canções que contribuíram em minha formação política. Como minha série não está seguindo uma sequência cronológica – nem no que se refere à data da composição das canções nem no que diz respeito a quando eu as conheci – não tem problema inserir esta canção aqui.
A massa foi apresentada no festival MPB 80. Eu tinha um ano de idade.
A dor da gente é dor de menino acanhado Menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar Que salta aos olhos igual a um gemido calado A sombra do mal-assombrado é a dor de nem poder chorar
Moinho de homens que nem jerimuns amassados Mansos meninos domados, massa de medos iguais Amassando a massa a mão que amassa a comida Esculpe, modela e castiga a massa dos homens normais
Quando eu lembro da massa da mandioca mãe, da massa When I remember of “massa” of manioc Nunca mais me fizeram aquela presença, mãe Da massa que planta a mandioca, mãe
A massa que eu falo é a que passa fome, mãe A massa que planta a mandioca, mãe Quand je rappele de la masse du manioc, mére Quando eu lembro da massa da mandioca
Lelé meu amor lelé no cabo da minha enxada não conheço “coroné” Eu quero mas não quero (camarão). Minha mulher na função (camarão) Que está livre de um abraço, mas não está de um beliscão
Torno a repetir meu amor: ai, ai, ai! É que o guarda civil não quer a roupa no quarador Meu Deus onde vai parar, parar essa massa Meu Deus onde vai rolar, rolar essa massa
Na primeira vez que ouvi a música, vieram à minha mente as imagens de crianças cortando, raspando e amassando mandioca nas inúmeras casas de farinha no interior do país. São meninos bezerros, pisados no curral do mundo, a penar. São crianças que não podem reclamar, a não ser na forma de gemidos calados.
Mas essa letra é genial – quem já foi meu aluno sabe o quanto eu gosto dela. Faz uso da polissemia da massa de maneira magistral. Denuncia, assim, todo um sistema que se estabelece sobre a exploração do trabalho de homens e mulheres que são reduzidos à massa – amassada e moída, reduzida a meros jerimuns amassados. É uma denúncia contra a submissão a condições de trabalho desumanas a homens, mulheres e crianças, mas não apenas isso. O sistema como um todo é um moinho de homens que amansa amassa de homens normais.
Esse sistema que posa de sacrossanto e se pretende o melhor dos mundos tem por objetivo mais ou menos definido a exploração do trabalho numa ponta e a conversão de homens e mulheres a mera massa – disforme, informe, indefinida, domada, submissa, acrítica, moldável e castigável. É um sistema que se fundamenta numa ideia em que ser mansa massa é fundamental.
A massa é aquilo que produz o trabalho. Mas é a própria massa, afinal, que planta a mandioca, que a colhe, que a amassa, que a tritura. A massa da mandioca é o fruto do trabalho de uma massa amansada por esse sistema.
Mas Raimundo Sodré é uma voz profética de denúncia e de esperança quanto a isso. O próprio estilo em que canta, do Recôncavo Baiano, indica a voz da resistência que ele representa. O samba de roda, e a sua variante chula, é uma música de resistência dos grupos negros escravos e ex-escravos. É a sua identidade cultural, uma identidade que resiste às pressões desse Sistema-Moinho que a todos quer tragar e reduzir à massa. É identidade estética, musical, cultural, étnica. [Mesmo um grupo como Psirico, que já afirmei não gostar, se posiciona nessa mesma linha de resistência estética e releitura do samba de roda].
Pois é. Descobri tarde, mas me pergunto com Raimundo Sodré onde vai parar essa massa?
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