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Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...
O que aconteceu com o garoto João Ricardo é uma tragédia anunciada. Aliás, anunciada não só, como também repetida. Isso acontece todos os dias na maior parte do país: a polícia executa seus alvos sem chance de defesa.
Ano passado eu conversei com uma amiga que defendia que "bandido tem que ser morto mesmo". Apesar de ela ser evangélica. E eu argumentava o que para mim é óbvio. Por mais que a sociedade captule e aceite essa polícia violenta e assassina porque sente que sua insegurança é enfrentada pela morte dos criminosos, ela ainda ia sentir na pele a conseqüência. E minha amiga só ia perceber quando tarde demais fosse.
Primeiro, uma polícia violenta e assassina, como a denunciada por Tropa de Elite (que não foi compreendido pelo público, que transformou em herói quem era tão bandido quanto os traficantes), é um risco à democracia e ao Estado Democrático de Direito. A democracia e a sociedade sofrem séria ameaça se algum ente dessa relação percebe ou recebe poder absoluto. Para definir quem vive e quem morre. À margem da lei. Mesmo aceita pela classe média - que é quem menos sofre as conseqüências de suas ações - a polícia que mata, espanca e tortura é tão ou mais marginal que os bandidos. Os bandidos já são declaradamente fora da lei - sua ação ilegal não surpreende nem é novidade. Mas quando a gente permite que nossas polícias sejam fora da Lei - aí o perigo e o problema residem e imperam com força.
Mas eu dizia à minha amiga que ela só perceberia a ignorância de sua defesa da violência policial quando cada vez mais inocentes fossem mortos pela polícia. Não que eles não tenham sido sempre mortos - e transformados em vilões, traficantes, pelo relato inconteste dos agentes da lei. Mas quando a história fosse inverossímel, ela se lembraria de mim. Em pouco tempo, seis jovens negros e sem nenhuma passagem policial ou envolvimento em crimes, foram executados na Bahia. Um estava no carro da patroa, acompanhado por ela, colocando créditos no celular, quando foi executado por uma policial à paisana que acreditava que o negro em uma mercedes só podia ser assaltante! Outro, era um artista circense que trabalhava em Belo Horizonte e estava visitando a família na Bahia.
Uns meses atrás, um vocalista de uma banda gospel, de igreja, foi executado pela polícia no Rio, que plantou em suas mãos arma e drogas. E tudo culmina com um garoto morto da forma como a polícia sabe agir e é instruída para fazer. Atirar para matar. Depois, se inventa que havia um tiroteio. Era capaz de dizer que João Roberto, aos três anos, empunhava uma arma. Mas dessa vez foi diferente. A mentira foi pega, porque alcançou uma família de classe média. Mas nas periferias, com gente sem instrução, o que não acontece? Espero que não vivamos um tempo como o de anos atrás em que, por escrever um livro sobre a Rota, Caco Barcellos se viu obrigado a ir morar no exterior.
Espero que nossa sociedade acorde para isso e não se permita mais ter uma polícia de Nascimentos.

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