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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Ouvindo a voz de Deus em dias difíceis

Ouvindo a voz de Deus em dias difíceis

 

Samuel ainda era menino...

1 Samuel 3. 1.

 

Aqueles eram dias difíceis para a vida espiritual de Israel.  Eli era o sacerdote.  Seus filhos eram, no dizer do nordeste, cabras safados que desviavam os sacrifícios e, ainda, se valiam de sua posição privilegiada para explorar o povo.  E Eli não fazia muito para impedir o que estava acontecendo.  Para piorar, diz o autor do texto, naqueles dias poucas mensagens vinham do Senhor, e as visões também eram muito raras (1 Sm. 3. 1).  Era como se Deus estivesse em silêncio.

Mas se dermos uma olhada atenta ao contexto vamos ver que o problema não era o silêncio de Deus.  Deus não estava silente ou distante.  O problema era não haver ouvidos para ouvi-Lo nem olhos para vê-Lo.  Era um problema de audição e de visão, não de fala.  Os corações estavam distantes de Deus, não Deus distante do povo.  A começar da família do sacerdote, Israel estava se ausentando do Senhor cada vez mais.  Ninguém tinha ouvidos para ouvir o que Deus tinha a dizer à Sua gente.  Ninguém tinha olhos para ver.  Ninguém se dispunha a buscar Sua face e se pôr como canal de bênção e mediação entre Deus e o povo.

Era de se esperar que a liderança de Israel tivesse de vir dos mais velhos e experientes.  Dos mais capacitados, dos mais vividos.  Mas o que Deus faz quando esses se afastam?  Como se fosse uma forma de exaltar a falha dos mais velhos, Ele chama um menino.  Samuel ainda era um menino.  É como se Deus nos dissesse que, se aqueles que têm vivência para interpretar o que Ele fala, para entender as visões e, mais que isso, para liderar o povo não têm ouvidos para ouvir, Ele envia Sua Palavra para alguém que tenha ouvidos para ouvir e olhos para ver.  Que tenha seu coração nEle, mesmo que seja uma criança.  É como se Deus usasse até esse fato para denunciar a frieza e a circunstância difícil em que se encontra a liderança do Seu Povo.  Se os líderes do povo não sabem ouvir a voz de Deus, Deus decide liderar o povo por meio de uma criança.

Certa noite Eli, já quase cego, estava dormindo no seu quarto.  Samuel dormia na Tenda Sagrada, onde ficava a arca da aliança.  E a lâmpada de Deus ainda estava acesa.  Então o Senhor Deus chamou: - Samuel, Samuel! (1 Sm. 3. 2 ? 4).  Sem entender o que se passa, Samuel corre até Eli, pensando que o velho sacerdote o chamara.  Isso se repete ainda mais duas vezes, até que Eli se convence de que é Deus que está chamando o garoto.  E o instrui a como agir. 

Imagino a luta interior do sacerdote: Deus não pode falar por meio de uma criança.  Em um tempo em que são raras as mensagens, poucas as visões, Deus não escolheria uma criança, que é incapaz de compreender as coisas, para falar por meio dela, para falar a ela.  Ele não poderia aceitar que a voz que aquele garoto está ouvindo, garoto tão inexperiente que não consegue entender o que se passa, era a voz de Deus.  Deus devia falar com ele, o sacerdote.  Nunca com uma criança.  Mas depois da terceira vez, não tinha mais o que fazer: Então Eli compreendeu que era o Senhor quem estava chamando o menino (1 Sm. 3. 8).  Sua resistência e seu preconceito foram vencidos.

Essa história me ensina principalmente uma coisa: não devo me surpreender com os canais que Deus escolhe para falar com Seu povo ou liderá-Lo.  Ele não está preso aos nossos preconceitos e aos nossos entendimentos de mundo.  Não devo, por isso, menosprezar os canais que Deus pode escolher para falar comigo.  Mesmo que seja uma inexperiente e imatura criança.  Ele pode justamente escolhê-la para mostrar a mim o quão distante estou do Seu ideal de experiência e maturidade.  E para me denunciar de que, diferente dela, eu não estou com o coração cem por cento em Deus, eu não tenho meus ouvidos voltados para ouvir Sua voz, não busca a Sua face e não vejo o que Ele quer me mostrar.  Nada impede que uma criança aja assim e seja canal do fluir de Deus no meio do povo. 

Nada impede que Deus fale conosco através dos canais mais surpreendentes.  Espero que tenhamos ouvidos para ouvir e olhos para ver.  Espero que não desprezemos esses canais e percamos a mensagem que Ele nos dirige.  Espero que não demoremos, como vez Eli, para reconhecer a ação de Deus.  Podemos demorar demais e, aí, seria tarde. 

 

Daniel Dantas

Missionário da 1ª IPI do Natal

http://cavernadeadulao.blogspot.com

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