Pular para o conteúdo principal

Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...

Ouvindo a voz de Deus em dias difíceis

Ouvindo a voz de Deus em dias difíceis

 

Samuel ainda era menino...

1 Samuel 3. 1.

 

Aqueles eram dias difíceis para a vida espiritual de Israel.  Eli era o sacerdote.  Seus filhos eram, no dizer do nordeste, cabras safados que desviavam os sacrifícios e, ainda, se valiam de sua posição privilegiada para explorar o povo.  E Eli não fazia muito para impedir o que estava acontecendo.  Para piorar, diz o autor do texto, naqueles dias poucas mensagens vinham do Senhor, e as visões também eram muito raras (1 Sm. 3. 1).  Era como se Deus estivesse em silêncio.

Mas se dermos uma olhada atenta ao contexto vamos ver que o problema não era o silêncio de Deus.  Deus não estava silente ou distante.  O problema era não haver ouvidos para ouvi-Lo nem olhos para vê-Lo.  Era um problema de audição e de visão, não de fala.  Os corações estavam distantes de Deus, não Deus distante do povo.  A começar da família do sacerdote, Israel estava se ausentando do Senhor cada vez mais.  Ninguém tinha ouvidos para ouvir o que Deus tinha a dizer à Sua gente.  Ninguém tinha olhos para ver.  Ninguém se dispunha a buscar Sua face e se pôr como canal de bênção e mediação entre Deus e o povo.

Era de se esperar que a liderança de Israel tivesse de vir dos mais velhos e experientes.  Dos mais capacitados, dos mais vividos.  Mas o que Deus faz quando esses se afastam?  Como se fosse uma forma de exaltar a falha dos mais velhos, Ele chama um menino.  Samuel ainda era um menino.  É como se Deus nos dissesse que, se aqueles que têm vivência para interpretar o que Ele fala, para entender as visões e, mais que isso, para liderar o povo não têm ouvidos para ouvir, Ele envia Sua Palavra para alguém que tenha ouvidos para ouvir e olhos para ver.  Que tenha seu coração nEle, mesmo que seja uma criança.  É como se Deus usasse até esse fato para denunciar a frieza e a circunstância difícil em que se encontra a liderança do Seu Povo.  Se os líderes do povo não sabem ouvir a voz de Deus, Deus decide liderar o povo por meio de uma criança.

Certa noite Eli, já quase cego, estava dormindo no seu quarto.  Samuel dormia na Tenda Sagrada, onde ficava a arca da aliança.  E a lâmpada de Deus ainda estava acesa.  Então o Senhor Deus chamou: - Samuel, Samuel! (1 Sm. 3. 2 ? 4).  Sem entender o que se passa, Samuel corre até Eli, pensando que o velho sacerdote o chamara.  Isso se repete ainda mais duas vezes, até que Eli se convence de que é Deus que está chamando o garoto.  E o instrui a como agir. 

Imagino a luta interior do sacerdote: Deus não pode falar por meio de uma criança.  Em um tempo em que são raras as mensagens, poucas as visões, Deus não escolheria uma criança, que é incapaz de compreender as coisas, para falar por meio dela, para falar a ela.  Ele não poderia aceitar que a voz que aquele garoto está ouvindo, garoto tão inexperiente que não consegue entender o que se passa, era a voz de Deus.  Deus devia falar com ele, o sacerdote.  Nunca com uma criança.  Mas depois da terceira vez, não tinha mais o que fazer: Então Eli compreendeu que era o Senhor quem estava chamando o menino (1 Sm. 3. 8).  Sua resistência e seu preconceito foram vencidos.

Essa história me ensina principalmente uma coisa: não devo me surpreender com os canais que Deus escolhe para falar com Seu povo ou liderá-Lo.  Ele não está preso aos nossos preconceitos e aos nossos entendimentos de mundo.  Não devo, por isso, menosprezar os canais que Deus pode escolher para falar comigo.  Mesmo que seja uma inexperiente e imatura criança.  Ele pode justamente escolhê-la para mostrar a mim o quão distante estou do Seu ideal de experiência e maturidade.  E para me denunciar de que, diferente dela, eu não estou com o coração cem por cento em Deus, eu não tenho meus ouvidos voltados para ouvir Sua voz, não busca a Sua face e não vejo o que Ele quer me mostrar.  Nada impede que uma criança aja assim e seja canal do fluir de Deus no meio do povo. 

Nada impede que Deus fale conosco através dos canais mais surpreendentes.  Espero que tenhamos ouvidos para ouvir e olhos para ver.  Espero que não desprezemos esses canais e percamos a mensagem que Ele nos dirige.  Espero que não demoremos, como vez Eli, para reconhecer a ação de Deus.  Podemos demorar demais e, aí, seria tarde. 

 

Daniel Dantas

Missionário da 1ª IPI do Natal

http://cavernadeadulao.blogspot.com

Comentários

Postagens mais visitadas