Pular para o conteúdo principal

Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...
Talvez a palavra não descreva muito bem o que tento pensar ou sentir, mas foi esquisito, depois de tudo, voltar a partilhar o teto com Raquel. Não imaginava que isso ocorreria ainda. Deixe-me explicar, para não ser mal-entendido. Dentre a vintena de pessoas que hoje mora no seminário, Raquel é uma delas. E eu me hospedei lá nesse fim de semana. Naquele espaço reduzido nos evitávamos. Imagino, de acordo com algumas coisas que ela me disse em nosso último contato, que sua atuação na representação do "não fazer diferença" eu estar presente deve ter demandado muita energia. Energia semelhante a que ela tem gastado para mostrar que tudo foi superado no coração dela. No meu eu sei que foi, mas eu não preciso esconder que algumas coisas me constrangem. Energia semelhante meus amigos e ex-colegas de seminário gastaram para fingir não sentir a saia justa.
Não lhe dirigi palavra ou olhar. Sem remorso. Percebi, ano passado, que enquanto tudo se resolvia no fundo para mim (e se resolveu, por fim), ela apenas empurrou as questões para debaixo do tapete. Não havia, então, nenhum contato possível, já que ela me impingiu a responsabilidade de resolver problemas insolúveis: fazer algo que nem Deus faz, que é mudar o passado. Logo, estar sob o mesmo teto que ela não mais dóia (como doeu por muito tempo), mas constrangia. Afinal, agora a casa é dela.
Mas eu trago dois ressentimentos que, no entanto, não me roubam mais equilíbrio ou paz. (As demais questões que já levantei no passado já foram lavadas pela Graça). Pensava sobre isso enquanto almoçava domingo em Iracema.
O primeiro deles diz respeito à falseação na representação de perdão que ela executou. Mentiu para si e mentiu para mim, chegando a acreditar que me perdoara. Por muito tempo, isso era tudo o que eu queria: ser perdoado. Achar que havia sido perdoado me fazia livre e feliz. Mas não era verdade. No e-mail que me mandou ano passado, Raquel retirou a máscara e assumiu a mágoa perene e que só aumenta. Jamais intentei forçar que ela me perdoasse, por mais que precisasse do seu perdão. Também não lhe nego o direito da mágoa. Fiz algo muito sério contra ela. Feri profundamente a sua dignidade. Mas falsear perdão e restauração causou ressentimento: ela sabia que o seu perdão era o que mais queria.
O segundo é a invasão à minha privacidade que tenho sofrido através de constantes e incovenientes comentários ("anônimos") que ela tem deixado neste blog. Se tentamos restauração e não deu certo, nos deixemos, então, em paz. Finalmente.
Como disse, pensava nisso no almoço. Ao voltar para o Dragão do Mar, onde ocorria o Colóquio, deparei-me com um carro estacionado, adesivo da Igreja de Cristo, um versículo direto às minha indagações, ao meu pensamento, ao meu coração: Enquanto depender de vocês, tenham paz com todos os homens. Não depende mais de mim. Segui feliz. Assunto encerrado.

Comentários

Postagens mais visitadas