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Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...
Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração.

Eclesiastes 7. 2

Alexandre Tadeu é um dos meus melhores amigos. Ele é um daqueles amigos que podem ficar anos distante de nós mas que tem morada reservada em nossa vida e coração.
Tadeu é um amigo querido. Foi meu vice-presidente, quando presidi o Centro Cívico do Colégio das Neves, dez anos atrás. Junto comigo e Thiago, formava o núcleo do movimento cultural que objetivava mudar o mundo naqueles dias: os Desafinados.
Segunda passada, uma amiga em comum me disse que ele vai ser papai. Sua esposa está grávida de três meses.
Naquela tarde fui ao colégio tratar de assuntos relativos ao clube de xadrez que estamos formando. E soube que Carlão, técnico de basquete masculino do colégio, presidente da Federação Estadual de Basquete, e irmão de Tadeu, havia sofrido um AVC. Na artéria tronco do cérebro. Lembrei do meu amigo. Lembrei da psicóloga que é em grande parte culpada por quem sou hoje, Isabel, psicóloga do Neves, esposa de Carlão.
Sábado soubemos que Carlão havia tido morte cerebral. A família autorizou a doação de todos os órgãos.
Hoje à tarde, Carlão foi sepultado. O ginásio do colégio estava lotado no velório. Ex-alunos, ex-professores, ex-funcionários, amigos, parentes, autoridades, Tadeu e Isabel. Tadeu estava muito abatido. Isabel, muito serena. Serena de maneira profundamente impactante. Suas filhas, chorosas mas tranquilas. Um minuto de aplausos para ele. Os professores de educação física do colégio estavam arrasados.
Hoje à tarde eu lembrei do texto de Eclesiastes. E mais uma vez percebi a verdade dessa reflexão do sábio (ou sábia) de Jerusalém. O lugar da dor do luto é um excelente lugar para refletir acerca da vida humana. Dos limites humanos.

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