Pular para o conteúdo principal

Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...
Como prometi, vou tentar selecionar uns trechos dos artigos de meu pai que estão sendo publicados em referência aos 40 anos do Golpe Militar pelo Diário de Natal:

Encontrei sequestradores que, na calada da noite, me puseram óculos de borracha, algemas e me levaram para o circo de horrores do DOI-CODI, em Recife, onde os gritos dos torturados sucumbiam ante o som alto, alegre e estridente dos rádios, executando "Eu te amo, meu Brasil, eu te amo".
...
[No Rio de Janeiro, clandestino] Os dias passando, dinheiro acabando. (...) Já "nas últimas", tomei um ônibus na Praça 15. Destino: Cordovil, bairro distante, onde morava o meu querido tio Chico, irmão de meu pai. Tão querido e solidário que, depois lhe contar tudo e pedir abrigo, "por uns poucos dias", ele respondeu:
- Lamento muito, meu filho, mas eu não quero me envolver com essas coisas de subversão. Vá embora e Deus lhe abençoe.
Com fome, com raiva, quase sem dinheiro qualquer, mandei meu querido tio enfiar sua bênção em lugar impróprio e subi a rua Aragão Gesteira com gosto de morte e horror na boca.

Comentários

Postagens mais visitadas