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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Como prometi, vou tentar selecionar uns trechos dos artigos de meu pai que estão sendo publicados em referência aos 40 anos do Golpe Militar pelo Diário de Natal:

Encontrei sequestradores que, na calada da noite, me puseram óculos de borracha, algemas e me levaram para o circo de horrores do DOI-CODI, em Recife, onde os gritos dos torturados sucumbiam ante o som alto, alegre e estridente dos rádios, executando "Eu te amo, meu Brasil, eu te amo".
...
[No Rio de Janeiro, clandestino] Os dias passando, dinheiro acabando. (...) Já "nas últimas", tomei um ônibus na Praça 15. Destino: Cordovil, bairro distante, onde morava o meu querido tio Chico, irmão de meu pai. Tão querido e solidário que, depois lhe contar tudo e pedir abrigo, "por uns poucos dias", ele respondeu:
- Lamento muito, meu filho, mas eu não quero me envolver com essas coisas de subversão. Vá embora e Deus lhe abençoe.
Com fome, com raiva, quase sem dinheiro qualquer, mandei meu querido tio enfiar sua bênção em lugar impróprio e subi a rua Aragão Gesteira com gosto de morte e horror na boca.

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