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Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...
[Ainda no Rio] Os dias correndo e as notícias chegando, nada esperançosas. Eu, agulha no palheiro da cidade grande, rumo incerto, "olhando de lado" e sabendo: voltar agora não seria jamais "uma forma de renascer". Lembrando Gide: "Ensina-me os caminhos de ir". Amigos presos, amigos mortos - nos enfrentamentos de rua ou nas masmorras da Ditadura. Cartazes em toda parte: "Procura-se". Muitos rostos conhecidos e eu me sentindo um deles.
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[Após a fulga para o Uruguai, para onde foi disfarçado de torcedor do Palmeiras, encontra-se com Djalma Maranhão em um café em Montevidéu e pede-lhe ajuda] Na verdade, Djalma Maranhão queria ficar a sós comigo. Era um conterrâneo que chegava, era um pedaço de Natal, um naco de carne de sol, uma mochila de feijão verde, um litro de água do mar da Redinha. E disso é que Djalma precisava naquela cidade fria e cinzenta de Montevidéu. O ex-prefeito me levou com ele até uma pequena casa de câmbio, onde defendia alguns trocados "para ajudar no aluguel". Também fazia distribuição de jornais, como forma de auxiliar nas despesas. Ou seja: eram grandes as dificuldades econômicas por que passava o implantador do revolucionário método "De pés no chão também se aprende a ler".

Djalma Maranhão era o prefeito de Natal à época do Golpe. Seu governo formava-se a partir de uma aliança de forças populares e de esquerda. Foi enxotado do Palácio Felipe Camarão (sede do executivo municipal), na noite do dia 1º de abril de 1964, aos gritos de "Acabou a baderna! Pra fora, bando de comunistas filhos da *". Morreu no exílio uruguaio, de saudades de sua terra, segundo meu pai.
No início dos anos 60, Paulo Freire escolheu o Rio Grande do Norte para implantar o método "De pé no chão também se aprende a ler". Além de Natal, o método foi implantado também em Angicos, no interior do estado. Paulo Freire é o pai da Pedagogia do Oprimido, que mudou radicalmente as concepções de educação, não só no Brasil.

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