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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Se eu não me engano, a estética da recepção, de Jauss, afirma que a obra de arte se constitui da soma de dois fatores que acontecem no espectador. Em primeiro lugar, ela provoca emoção. Ela impacta emocionalmente aquele que se depara com a obra, seja um quadro, seja um livro, seja uma foto. E sejam essas emoções alegres ou tristes, profundas ou singelas. O importante é: a obra emociona.
E em segundo lugar, a obra traz um conhecimento novo, uma informação nova. Ela acrescenta algo que, em contato com o meu conjunto pessoal de informações, transforma o meu conhecimento e, por conseqüência, a mim mesmo.
Por que estou dizendo isso? Porque hoje eu fui assistir, pela segunda vez, Cidade de Deus. A primeira vez foi em 2002, em Fortaleza. Sozinho. Hoje eu fui levar a minha mãe para ver o filme, cujas cenas, enredo, personagens ainda estavam profundamente vívidos na minha lembrança.
Na cena das mais chocantes do filme, em que Zé Pequeno faz com que Filé-com-fritas execute um garoto um pouco mais novo que ele, alguém de duas fileiras atrás de mim riu. Eu me indignei. Minha mãe protestou: Como alguém pode rir numa cena dessas?.
Ao final do filme, após a exibição da entrevista real de Mané Galinha ao Jornal Nacional, saindo do cinema, percebi minha mãe com lágrimas nos olhos. E ela me perguntou: Foi esse filme que foi aplaudido de pé nos Estados Unidos? Eu retruquei, ao perceber as lágrimas: Você está me dizendo que não gostou do filme ou que ele impactou tremendamente você?
É claro que ela se referia ao tamanho do impacto emocional que o filme provoca. Algo que os antigos chamariam de, simplesmente, soco no estômago. Ela disse isso. O filme, na sua opinião, era muito bom, apesar de cruel. O maior impacto é o de perceber que aquilo tudo, de uma maneira crua, é real. Dessa maneira, foi para mim impactante perceber, quando no final é exibida a entrevista com Mané Galinha, que ele existiu mesmo. Quer dizer, que aquilo é real mesmo, de alguma maneira.
Impacto e informação. Cidade de Deus provou-se uma obra de arte.

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