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Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...
Se eu não me engano, a estética da recepção, de Jauss, afirma que a obra de arte se constitui da soma de dois fatores que acontecem no espectador. Em primeiro lugar, ela provoca emoção. Ela impacta emocionalmente aquele que se depara com a obra, seja um quadro, seja um livro, seja uma foto. E sejam essas emoções alegres ou tristes, profundas ou singelas. O importante é: a obra emociona.
E em segundo lugar, a obra traz um conhecimento novo, uma informação nova. Ela acrescenta algo que, em contato com o meu conjunto pessoal de informações, transforma o meu conhecimento e, por conseqüência, a mim mesmo.
Por que estou dizendo isso? Porque hoje eu fui assistir, pela segunda vez, Cidade de Deus. A primeira vez foi em 2002, em Fortaleza. Sozinho. Hoje eu fui levar a minha mãe para ver o filme, cujas cenas, enredo, personagens ainda estavam profundamente vívidos na minha lembrança.
Na cena das mais chocantes do filme, em que Zé Pequeno faz com que Filé-com-fritas execute um garoto um pouco mais novo que ele, alguém de duas fileiras atrás de mim riu. Eu me indignei. Minha mãe protestou: Como alguém pode rir numa cena dessas?.
Ao final do filme, após a exibição da entrevista real de Mané Galinha ao Jornal Nacional, saindo do cinema, percebi minha mãe com lágrimas nos olhos. E ela me perguntou: Foi esse filme que foi aplaudido de pé nos Estados Unidos? Eu retruquei, ao perceber as lágrimas: Você está me dizendo que não gostou do filme ou que ele impactou tremendamente você?
É claro que ela se referia ao tamanho do impacto emocional que o filme provoca. Algo que os antigos chamariam de, simplesmente, soco no estômago. Ela disse isso. O filme, na sua opinião, era muito bom, apesar de cruel. O maior impacto é o de perceber que aquilo tudo, de uma maneira crua, é real. Dessa maneira, foi para mim impactante perceber, quando no final é exibida a entrevista com Mané Galinha, que ele existiu mesmo. Quer dizer, que aquilo é real mesmo, de alguma maneira.
Impacto e informação. Cidade de Deus provou-se uma obra de arte.

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