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Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Parece que tenho me ouvido pouco. Digo isso porque já me senti, um dia, como um exilado, ainda que estivesse em minha casa, minha cidade, minha família, meu povo. Esse era justamente o problema. Talvez pela terrível inadaptabilidade de um cidadão do mundo, o sentimento do exílio se relacionava diretamente ao fato de ter voltado para minha velha casa. O meu lugar era outro, era Fortaleza, era minha vida livre e independente.
Eu julguei que havia me curado disso ao longo de todo um ano como foi o de 2003. Mas agora me flagro falando, sentindo e vivendo a saudade. Saudade de pessoas caras que sumiram da vida é sentimento de exilado. Ainda que esteja reconstruindo minhas relações, estou programado pelo sentimento de alguém exilado de meus próprios sentimentos, emoções e relacionamentos. Talvez esteja descobrindo que a caminhada ainda é difícil.
Ou quem sabe é tudo muito simples e eu não precisaria mais me preocupar em ser um exilado. Na verdade, essa seria minha essência. Apesar de todo amor e toda a vida que dedico às relações, as saudades e o exílio (perda) dos amigos e amores são inescapáveis para mim.
Enfim, se estou conseguindo ouvir algo do que digo é que sou um exilado dos meus amores. Pelo menos por enquanto.

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