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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Comprei um livro de Pierre Lévy, A conexão planetária, e a impressão que estou tendo na leitura é que o francês deve ter ficado cego pelas próprias idéias. No seu texto, o mundo perfeito do ciberespaço engloba toda a humanidade. Não há exclusão, não há miséria. Na verdade, parece que a ideologia por trás de suas teses diz respeito à definição do que é ser humano. Se alguém não estiver inserido ao sistema midiático global definido pelo ciberespaço é desconsiderado, certamente, como uma não-pessoa. Logo, dessa forma, é óbvio que toda a humanidade estará conectada à Rede já que é essa conexão que trará a definição de humanidade. E quem estiver excluído desse processo não será contado entre os humanos. Serão alguma sub-raça.
Preocupam-me idéias como essas que passam por ciência. O cara é respeitado como dos maiores pensadores da cibercultura no mundo atual mas me parece que assume discursos ideologizados, como o do fim da história, pregando uma vrtual unidade de uma humanidade. Parece mais uma nova Roma cibernética em que os sufocados e explorados pelos regimes liberais de todo o globo concreto serão descartados como matéria prima de um novo mundo.
Mas isso não pode pôr a perder toda a relevante reflexão que nos últimos anos, inclusive com pontos iluminados neste livro mesmo, Lévy tem gerado e trazido para o mundo contemporâneo.
Decepcionante e preocupante...

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