Pular para o conteúdo principal

Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...
Tem-se falado muito sobre o assassinato de Liana e Felipe em toda parte. Ontem Hebe falou um monte de barbaridades sobre o caso.
Acredito que a situação é grave, mas não temos visto ninguém pensar nas questões relevantes envolvidas no caso.
Por exemplo, apesar de parecer cruel dizer isso, esse caso somente se tornou primeira página da mídia porque envolveu a classe média paulista. A violência no país está a esse nível faz tempo, mas a classe média prefere sempre se esconder atrás das grades e muros de suas casas e se narcotizar com drogas diversas, desde as ilícitas até a tevê. Ela somente se desperta para o fato quando é tocada diretamente pela violência.
Hebe chamou de canalha o garoto que participou do assassinato. Disse que o mataria se pudesse. Ela não tem capacidade intelectual para entender a importância do veículo onde fala suas baboseiras. Ela não percebe como seria interessante se conduzisse suas discussões para questões relevantes, em vez de discutir a aplicação da pena de morte. Essa é uma discussão irrelevante porque no Brasil, a não ser que se escreva uma nova constituição, jamais haverá pena de morte oficial. Ainda que haja a que sociedade e Estado já promovem informalmente.
Mas acredito que ninguém tem se lembrado (e seria demais de minha parte exigir que Hebe o fizesse) de se perguntar que sociedade é essa a brasileira que gera um menino de 16 anos que se torna capaz de matar cruelmente dois outros adolescentes de mesma idade. Ninguém tem se preocupado em discutir que louca sociedade é essa que tem gerado tantas mazelas, que ainda se sente no direito de dizer que a violência que o adolescente cometeu é mais séria do que o violento processo que o empurra a essa situação.
Quem lhe deu educação? Quem lhe deu oportunidade? Quem lhe deu tratamento, se ele é claramente adoecido?
Por que Liana e Felipe são vítimas maiores que os meninos da Candelária? Por que sou obrigado a aceitar a perpetuação dessa mentalidade de senzala?
Acredito que somente conseguiremos mudar o quadro de nossa sociedade quando formos capazes de fazer as perguntas certas. Se nem disso temos sido capazes, como poderemos evitar novas tragédias?

Comentários

Postagens mais visitadas