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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Tem dias em que a delicadeza e a sensibilidade falham. Dias em que bem que a gente gostaria de dizer algo útil, de parecer mais capaz e maduro do que se é, de ser um companheiro mais real... Dias em que até sentimos falta de nós mesmos, de quem somos quando conseguimos ajudar os que se aproximam de nós.

Fim de semana, às vezes, faz isso comigo. Acho que precisava ser mais útil, estar mais presente, ter mais o que dizer, ser mais amigo de todos. Mas, às vezes, as forças foram drenadas por uma semana exaustiva.

É isso: hoje me sinto exaurido.

Exaurido especialmente por duas indignações e incapacidades minhas.

A primeira delas se refere às promessas de companheirismo eterno que se foram com a minha indelicadeza e com os medos irracionais dos à minha volta. Indignei-me e me senti incapaz de me trazer e aos companheiros de volta à razão.

A outra é pelo grito constante em meu peito contra as injustiças do mundo, contra as quais me sinto incapaz de lutar sozinho. Por que um semelhante a mim não teve as mesmas oportunidades que eu?

Além de tudo que a gente vê diariamente nas ruas das cidades, uma matéria do Jornal da Noite, na Band, chamou minha atenção quando mostrou moradores de ruas em São Paulo. Um dos muitos mendigos mostrados na reportagem cursou até o terceiro ano de Direito, tendo passado em 20º lugar no vestibular. Até que ficou desempregado e se tornou catador de lixo. Sonhando com o dia em que poderá terminar seu curso e trabalhar com direito civil e penal. Quem lhe dará esta oportunidade?

Um outro senhor, ex-jogador do Botafogo de Garrincha e Carlos Alberto, com formação superior em ciências contábeis, perdeu tudo na bebida. Que outra chance ele terá?

Isso me fez pensar em uma discussão que tive com meu primo certa vez. Ele comprou o discurso neoliberal por inteiro e defendia a tese de que os competentes se estabelecem no mercado. Quer dizer, para esse discurso as vítimas do excludente processo neoliberal de redução no oferecimento de vagas de emprego - a chamada crise de empregabilidade - são vítimas de sua própria incompetência.

Isso me indigna: alguém que acredita nesse artifício ideológico. Indigna-me também uma situação em que a falta oportunidade empurra tanta gente para fora da sociedade, da cidade, enfim, da vida.

Indigna-me as tantas vezes em que não me sinto mais eu. Como nesse fim de semana.

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