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Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...
O dia de ontem era reservado em nosso calendário para chorarmos os nossos mortos.
Vi minha avó chorando seus mortos.
Chorava mortos concretos. Os queridos que partiram. Seu irmão, único, falecido em março. Sua neta, morta há 17 anos. Morte insuportável ainda. Chorou suas amigas que se foram há tempos.
Minha avó chorava também uma morta bem próxima. Eliana, minha tia, filha mais próxima, passou o ano em Nova York. Dor insuportável. Mas não se compara com a dor mortal que minha tia está lhe causando. Ela ainda não vive em Natal. Ela não conseguiu ainda voltar de verdade das terras americanas. Minha tia está morta para essa terra. E, sem perceber, mata minha avó pouco a pouco. Minha tia se torna incapaz de se relacionar conosco. Incapaz de se relacionar verdadeiramente com a própria mãe. E perdeu a sensibilidade de percebê-la sofrendo a seu lado. Minha avó chorava a filha, morta (ainda que viva), ao seu lado.
Mas minha avó chorava também a própria morte. Não antecipando o inevitável, mas de modo real, minha avó chorava o fim de seus sonhos e sua vida. Ela (pelo menos na sua visão) morreu com os seus sonhos ainda aos catorze anos. Ao casar. Aquele casamento e essa vida que vem dali representou a morte da vida que ela sonhou para si mesma. Representou uma vida sem sentido, sem amor, sem relacionamentos concretos, sem sonhos, sem vida.
Aos 81 anos, toda a vida de minha avó hoje se restringe ao relacionamento com minha tia, Eliana. É seu sentido de vida. Mas Eliana anda muito egoísta para perceber que está matando o resto de vida da própria mãe.

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