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Destaques

Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...
Monólogo abandonado
(Lúcia Irene Reali Lemos)



- Moço:

sou andarilho destes cantos da cidade.

Sou menino, sou menina, sou sem nome;

de nariz escorrendo e cabelo raspado.



Minhas fantasias de menino “seo” moço,

estão perdidas nas janelas, nas vitrines,

no luxo desta sociedade impiedosa.



Canto, choro, brigo, viro-latas, lavo carros,

durmo nos bancos destas praças espalhadas.

Sonho acordar num berço amigo

e das calçadas em que amanheço sou o dono.



Eu pergunto: - “ seo ” moço, onde estão os

malditos indiferentes

à esta minha miserável vida?





Procurei nas escolas - não pude entrar, descalço que estava.

Procurei nas igrejas - não fui aceito. Incrédulo me tornei.

Procurei, nos parques de diversões,

nos circos das pipocas e dos palhaços

o meu sorriso de criança que nunca tive.



E o que encontrei, moço?

No espelho, vi meu rosto magro, pálido, estampado

e o estômago ditando ordens implacáveis

que se tornavam ainda mais cruéis

porque não eram atendidas.



Ai, moço!

Que gosto amargo tenho desta vida

que já me fez

matar, roubar, cheirar cola, passar fome, sentir frio,

anoitecer e amanhecer solitário...



MOÇO:

NÃO TENHO ARGUMENTOS CONTRA A FOME
E O DESEMPREGO de meus pais


HOJE SOU MENOR ABANDONADO, DELINQUENTE.

AMANHÃ, TENHO CERTEZA,

SEREI O PESADELO DESTA SOCIEDADE

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