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Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Meu olhar cruzou o dela. Vi tristeza, dor, sofrimento. Vi peso. Angústia. Ela entrava em Natal, ônibus vindo do interior do estado. Nos seus olhos era capaz de ver a sua história. Filhos que nunca tiveram acesso ao que ela sonhou poder dar. Trabalho, canseira, enfado em um casamento que se mantinha como gerador de força e unidade, mas que não conhecia afeto, amor profundo. Relacionamentos partidos. A falta do toque e da mão de amparo. A dor da falta das oportunidades de felicidade e de trabalho.
Nossos olhares se cruzaram mais uma vez. Vi alegria. A alegria de chegar em sua expressão sofrida. Vi uma mulher. Preocupava-se em ajeitar o cabelo, passar batom, se embelezar. Quem a esperava na rodoviária? Quem seria? Para quem ela vinha? O que sua vinda à capital lhe reservava?
Mais que isso: quem ela esperou toda a vida? Que felicidade ela sonhou? Que sonhos não foram realizados? Que partes de sua vida foram quebradas e jamais coladas de novo? Que amores ela viveu? Que amores perdeu?
Nunca um par de olhos me falou tanto. Nunca olhos me significaram tanto. Nunca olhos me instigaram tanto a sensibilidade.
Olhos estranhos me falaram mais do que olhos amigos. Por quê?

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