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Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...
A sinceridade é um alto preço. Ela pode provocar muita dor, apesar de ser o elemento essencial para sermos honestos conosco e com os outros. Honestos e transparentes.
Acredito que somente quando somos inteiramente sinceros (sem máscaras) somos capazes de construir a nossa volta o que realmente nos faz humanos. Somos humanos quando o somos em relação com os outros. Com aqueles que estão à nossa volta. Tornamo-nos gente quando somos capazes de amar. E somente amamos quando somos realmente sinceros.
Mas a sinceridade é um preço alto. Ela nos expõe demais, em primeiro lugar. E nosso instinto de conservação nos alerta que nos expor é perigoso. Pode machucar. Pode até matar. Mas se queremos viver com plenitude, amando e construindo um futuro ao lado de gente, é preciso que encaremos o perigo.
Sendo sinceros, deixamos as máscaras de lado. Se estamos tristes, vão saber que estamos tristes. Se algo nos faz bem, vão saber que estamos bem. Isso pode até irritar aqueles que se profissionalizaram em viverem vidas de encenação. Esses atores de suas próprias histórias não conseguem entender porque Davi, um safado rei de Israel, por exemplo, déspota imperialista, adúltero e assassino, pôde ser chamado de homem segundo o coração de Deus.
Davi é um exemplo para mim porque ele era alguém totalmente transparente. Pecou e assumiu seu pecado. Chorou sua dor e sofreu suas penas. Davi agradou a Deus não porque se disfarçasse bem ou fosse melhor do que ninguém. Mas apenas porque foi sincero e transparente todo o tempo, inclusive para assumir os seus erros.
A sinceridade também nos desafia. Desafia a que sejamos diferentes do que o mundo deseja que sejamos. O mundo hoje é um grande teatro onde as vidas se encenam, enganando-se a si mesmos, aos outros e a Deus. Uma sociedade assim caminha a passos largos para se esgotar, já que virtualiza tudo e nada é concreto.
O desafio de sermos sinceros é de deixarmos as nossas máscaras à margem do caminho. É de nos entregarmos a uma relação íntegra, em primeiro lugar, conosco mesmo. Mas uma relação íntegra com as pessoas especialmente.
O desafio da sinceridade nos empurra a nos entregarmos às pessoas. A pertencemos a elas. Cientes de que elas nos decepcionarão. Cientes de que nós as decepcionaremos (quem escapará da decepção?). Cientes de que vai doer. No entanto, cientes de que vale a pena, porque somente assim viveremos vidas reais, plenas de sentido, construindo uma nova sociedade, lado a lado com pessoas, pessoas que são como nós. Cheias de defeitos, mas que desejam honesta e sinceramente, amar e criar vínculos. Fazerem-se humanos.

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