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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Lucinha, minha irmã, me manda uma poesia de meu pai, que termina por confirmar grande parte das coisas que conversei com Susana, sexta-feira. É um poema de amor, amor transcendental, ideológico. É um poema que mostra que, por alguma via ainda desconhecida, me assemelho a um pai que nunca esteve presente tempo suficiente para eu copiá-lo.
Mas agora a minha busca é por amar e seguir pessoas, ainda que as idéias sejam e continuem sendo motivação importante na minha caminhada:

Por quem eu morrerei de amor

Eu amo aquela mulher
que está em muitos lugares
como uma lua desejada

Paixão que vem de longe
e sempre em minhas veias,
vísceras e sangue.

Uma mulher de incontáveis amantes
duros e ternos,
dos quais muitos chegaram
ao extremo por ela: morreram de amor.

Essa mulher tão clara e transparente
Tem o sabor gostoso, fabricado em sonhos
Igual dois sexos disputando a vida.

Perdi, alguma vez, de ter entre meus braços
O corpo vivo de minha paixão.
Foram derrotas para rivais mais fortes
E reconheço: eles fizeram jús ao meu ciúme
E mereceram o meu abraço cúmplice.
Não me senti traído.

E outras frustrações são esperadas
Pelos amantes espalhados, distraídos
Nas avenidas repletas de pretendente vacilantes

Não abdico jamais e apesar de tudo
Do meu direito de paixão por essa mulher.

Um dia eu a verei chegar
À minha alcova (mesmo que seja a última)
Depois que ela tenha percorrido o íntimo segredo
De todos os amantes, felizes e liberados.

Só não alcançarei o gozo da libertação
Por uma e só e única verdade, feliz
Terei morrido antes da paixão.

Para Lucinha, a revelação do meu amor revolucionário,
Rubens Lemos

(Dourados,14 de dezembro de 1985)

Pois bem, Daniel meu irmão, eis a mulher
de nome REVOLUÇÃO por quem meu pai
foi um eterno apaixonado!

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