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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Um garoto, com 12 anos no máximo, se aproximou de mim na UFRN pedindo-me uma ajudar para "inteirar" a prestação de contas dos sorvetes que ele vendeu. Ele usou dois reais do caixa de sua caixinha para comprar seu almoço. Profundamente educado, o garoto me fez refletir com sua petição (à qual não pude atender).
Em qualquer nível de reflexão, o fato me provoca, digamos, irritação. No mais superficial: como alguém põe um garoto tão novo em um trabalho tão cansativo? Como alguém o rouba o direito à educação? E nesse caso o "alguém" é ninguém menos que o seu explorador direto. Como esse explorador é capaz de colocar uma criança para trabalhar sem lhe dar o direito de, pelo menos, almoçar?
Mas a resposta às primeiras perguntas pode se focar em outro âmbito mais profundo. Ou seja, em última e principal instância é nosso modelo de vivência sócio-econômica que é o responsável por tudo. Atores nesse quadro, cada um de nós é, digamos, um efeito-sujeito desse modelo, dessa Ideologia, desse discurso.
Os que pensam precisamos viabilizar novas formas de impedir fatos como o que me ocorreu antes. Os que pensam não podemos perder a capacidade de indignação, em busca de saídas para esse quadro, quaisquer que sejam, mesmo revolucionárias.

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