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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Para marcar meu retorno, ainda que ins?pido, um texto dela:

Hoje passou o show de Truman na Globo. Esses caras parecem malucos: naum sabem o perigo que correm exibindo esse tipo de filme. Mas, pensando bem... desde que, logo em seguida, exibam aquela merda de Agora é que saum elas... é, risco nenhum.

Mas teve umas coisinhas do filme que me lebraram muito Moriyon e Paulo Freire. O Cristof (Ed Harris é muito feioso, velho...), quando discute pelo telefone com a Silvya, diz a ela que Truman naum se liberta porque n?o quer. Que se ele naum havia saido até entao era porque ele "prefere a cela". Truman, segunda a vis?o de Cristof, tem medo da liberdade.

N?s também temos medo da liberdade. N?s também somos reféns de uma corporaç?o, presos a ela, t?o absorvidos que n?o conseguimos suportar a mais leve possibilidade de elimin?-la. Isso porque, povo, liberdade n?o é presente: é conquista. Liberdade custa caro. Liberdade custa vidas, custa bem-estar, custa familia, custa "amigos", custa emprego, estabilidade... E eu falo aqui de muitas prisoes. Mas o velho PF especifica uma:

O "medo da liberdade", de que se fazem objeto os oprimidos, medo da liberdade que tanto pode conduzi-los a pretender ser opressores também, quanto pode mante-los atados ao status de oprimidos, é outro aspecto que merece igualmente nossa reflexao.
(...)
Este medo da liberdade também se instala nos opressores, mas, obviamente, de maneira diferente. Nos oprimidos, o medo da liberdade é o medo de assumi-la. Nos opressores é o medo de perder a "liberdade" de oprimir.


Ser prisioneiro naum eh boa coisa. Mas ser livre também pode naum ser. Lembram de Cypher, de Matrix 1? Ele experimentou a liberdade e naum curtiu. Pra ele, era melhor estar confortavel numa prisao do que estar fora dela comendo mingau e desejando uma mulher que n?o o desejava. Opç?o dele. Mas ele esteve dos dois lados antes de decidir. N?o posso me acomodar antes de saber como eh o outro lado.

"Tudo eh uma questao de escolha", citando Reloaded. Enquanto for mesmo, tudo otimo. Particularmente, a natureza mostruosa do que fizeram a Truman naum estava no mundo de fantasia em si, mas no fato de que ele naum teve escolha. Ele foi o bonequinho preferido do mundo por toda a sua vida e naum sabia. E o discurso de Cristof no final? Comovente, naum? E se o mundo além das fronteiras de Seaheaven fosse como o mundo destru?do de Matrix ou Waterworld? Naum seria melhor permanecer na redoma?

Naum sei.

Mas como eh que Truman saberia se continuasse a temer a pr?pria libertacao?

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