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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Resgatando MC Serginho e Lacraia

Divagando na leitura de Darcy Ribeiro, comecei a refletir sobre o fenômeno popular de MC Serginho e o escatológico Lacraia. E percebi que, no fim de tudo, eles devem ser as vítimas.

São vítimas de um sistema social, repleto de uma ideologia assimilacionista, que impede a progressão e crescimento no enorme contingente de negros, pobres e marginalizados do nosso país. Os ex-escravos, condenados a uma situação subalterna, têm poucas opções na vida.

Darcy Ribeiro relata que aos negros a sociedade só concede espaço em atividades que exijam pouca ou nenhuma instrução letrada. Por isso, as celebridades de cor são raras e estão sozinhas: Pelé, Grande Otelo, etc.. Alguns poucos intelectuais, que chamam mais atenção por serem exceções grandiosas do que porque se considere que tenham algo a acrescentar. Os políticos negros estão na mesma situação, especialmente se, além de negros, são mulheres, como Benedita.

Em um mundo assim construído o negro só pode se destacar e crescer quando for o inusitado. MC Serginho e Lacraia tinham duas opções diante do que o Brasil lhes ofereceu: a marginalidade ou o escatológico. Optaram pelo escatológico, que horroriza a classe dominante e apaixona a massa identificada.

O surgimento de um ser escatológico como Lacraia representa uma das poucas alternativas de triunfo cultural e social de uma classe, que vive humilhada a séculos. Que se confunde com a pobreza, opressão, falta de instrução e negritude. Ou seja, o próprio brasileiro.

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