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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
O Cannibal Café traz algumas reflexões muito interessantes para analisarmos. Não pretendo aqui repetir aquilo que a Sacerdotisa disse ali, analisando Maya, de Gaarder. Mas ali ela desenvolve idéias relacionadas ao Espírito Universal, o que me fez lembrar de minhas aulas de hermenêutica e também da teologia dialética.

A princípio, à idéia de Espírito Universal podemos contrapor a noção de sujeito como um universal. Não um sujeito, mas a certeza de que os entes racionais dessa existência são sujeitos que depreendem sua existência do Ser. Descartes, que é citado na epígrafe de 13º Andar, definiu a existência pelo raciocínio. Tendo se deparado com os questionamentos que também foram desenvolvidos pelo hinduísmo, entrou em desespero pela sua incapacidade de perceber-se como ser real.
Assim ele acaba por concluir que não há nada que seja real no universo, a não ser a própria capacidade de duvidar de tudo. A dúvida metódica. Daí ele conclui que se pensa, ele existe. Cogito, ergo sum.

A hermenêutica contemporânea, como uma postura que é acima de técnica ou ciência, afirma que não existe conhecimento objetivo. Apenas conhecimento intersubjetivo.

Isso ficaria mais claro sendo exemplificado na interpretação de um livro. Simplificando, ao lê-lo, você não pode depender de uma objetividade. Você dialoga com diversos atores nesse processo: o autor (o que se complica quando o texto está distante temporal e culturalmente de você), suas pré-noções e pré-juízos, a tradição cultural em que você se insere, você mesmo e seu conhecimento de mundo. A leitura é uma ação intersubjetiva, que não depende somente de você. É um diálogo, no entanto, em que o leitor participa ativamente, trazendo muito de si ao texto, à sua compreensão dele.

E isso, em maior ou menor grau, acontece com quaisquer outros conhecimentos científicos. E mesmo nas ciências exatas, em que as provas não podem ser subjetivadas, as perguntas e interesses que iniciam a pesquisa dependem diretamente do sujeito e de seus interesses. Mesmo aí, ainda que em menor grau, há uma dependência da subjetividade.

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