Pular para o conteúdo principal

Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Há uma crítica que ainda quero desenvolver melhor, com mais calma. Dirige-se contra a defesa que muitos crentes gostam de fazer de que irmão vota em irmão . E geralmente essa teologia se fundamenta em textos do Antigo Testamento, referentes à escolha do rei por Israel. Alguém que deveria ser fiel a Ele, para que a nação pudesse ser abençoada.
Creio que não seja difícil entender essa transposição como ilegítima.
Israel era uma teocracia, cujo culto oficial era a religião de Javé. Aquele era um ambiente de absoluta intolerância religiosa, e a Bíblia nos diz que os que se desviassem de Javé, deveriam ser morto (exatamente como acusamos o Alcorão de ensinar aos muçulmanos).
Obviamente, o rei dessa teocracia, soberano absoluto sobre o país, deveria ser um fiel adepto da religião de Javé. O próprio AT, em diversos momentos, avalia o reinado de algum deles a partir de seu compromisso com Javé.
Transpor esses textos para a nossa realidade é ilegítimo, por algumas razões. Em primeiro lugar, não vivemos em uma teocracia, mas sim em uma democracia com Estado laico. Ou seja, o Brasil não tem religião. Nosso país afirma a liberdade religiosa que Israel negava em seu tempo.
Desse modo, os interesses sociais, da coletividade, nem sempre serão os interesses da religião. Isso é completamente o oposto do Israel bíblico, onde religião e Estado eram uma coisa só.
O uso desses argumentos na defesa de que o Brasil precisa ser governado por um crente desconsidera a mudança social e política que o tempo trouxe. Desconsidera a separação entre Estado e Igreja, a afirmação de direitos humanos, que incluem a liberdade religiosa, e o surgimento da democracia como pressuposto da vida político-social.
Um governo deve atender aos interesses mais prementes de uma sociedade. Assim, pode até ser composto por cristãos evangélicos, mas não por isso.
Creio que os critérios para a escolha de governantes deve passar longe da religião, mas muito perto dos pobres. Esses critérios devem ser, especialmente, a justiça e a paz social, promovida através da luta pela democracia social, o fim das desigualdades, a defesa dos pobres. Sim, dos mais pobres e subalternos na sociedade, porque os ricos já sabem se defender.
A participação política dos crentes deve se pautar na luta, hodiernamente, contra o neoliberalismo, maior construtor dos abismos sociais contemporâneos, que anseia por acabar com quaisquer ações sociais, socorro dos necessitados, pensando mais no lucro do que nas pessoas.
Dessa maneira, não acredito ter coerência bíblica outra opção a não ser a esquerda para o envolvimento dos crentes.
Penso que essa idéias ainda precisam ser melhor trabalhadas. Por isso, aceito e preciso de críticas.

Comentários

Postagens mais visitadas