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Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...
A Farsa da Boa Preguiça foi escrita em 1960 pelo mestre Ariano Suassuna.
(Estou profundamente arrependido por não ter me prostrado aos seus pés nesses dez dias em que fomos vizinhos e ter-lhe dito: “Eu te idolatro, mestre!”)
Muitas coisas podem ser ditas sobre ela. A sacerdotisa já disse muito, mas gostaria de dizer algo também.

Em “Cultura e Política”, texto de 1970, Roberto Schwarz analisa a produção intelectual e cultural brasileira na década de 60, especialmente após o Golpe de 64.
Segundo Schwarz, mesmo com a Direita tomando conta da cena política com uma Ditadura que acabara de recrudescer com o AI-5, a produção cultural nacional era basicamente de esquerda, anti-imperialista e anti-americana. A desarticulação disso por parte do regime ainda engatinhava.
Mas o autor afirma que essa produção se distanciara do povo com o golpe. A ditadura cassara logo de início todas as personagens que ligavam a elite intelectual com a massa popular. Isso afastou o pensamento cultural de esquerda da população, cada vez mais desmobilizada.
Essa intelectualidade de esquerda é criticada em algum lugar como se assemelhando às raparigas e seu amor pelos pobres: inteiramente condicional. É uma intelectualidade de bordel, que é pensada totalmente afastada do povo.
Clarabela é a personagem da Farsa que reflete essa situação. Uma construção de pensamento esquerdista (falsificado) que não possue nenhuma relação com o povo:

(falando sobre o marido, o rico Aderaldo Catação)
Vive catando migalhas,
como um... Não sei como diga!
Como um herói de Balzac!
Não encontro melhor definição:
Aderaldo, agora, é um herói de Balzac!
Você já leu Balzac, Simão?

SIMÃO

Não!

CLARABELA

E Joyce? E Proust? E Maiakoviski?

SIMÃO

Também não!

CLARABELA

Precisa ler! Principalmente Joyce e Maiakoviski,
para saber o que é uma forma concreta de vanguarda,
e um conteúdo de participação!


Parece que o povo e a intelectualidade que deseja pensar o mundo popular para o bem do povo habitam mundos distintos. Joaquim Simão (o povo) e Clarabela (os intelectuais) chegam a ser amantes, mas findam se separando.

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