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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
A Farsa da Boa Preguiça foi escrita em 1960 pelo mestre Ariano Suassuna.
(Estou profundamente arrependido por não ter me prostrado aos seus pés nesses dez dias em que fomos vizinhos e ter-lhe dito: “Eu te idolatro, mestre!”)
Muitas coisas podem ser ditas sobre ela. A sacerdotisa já disse muito, mas gostaria de dizer algo também.

Em “Cultura e Política”, texto de 1970, Roberto Schwarz analisa a produção intelectual e cultural brasileira na década de 60, especialmente após o Golpe de 64.
Segundo Schwarz, mesmo com a Direita tomando conta da cena política com uma Ditadura que acabara de recrudescer com o AI-5, a produção cultural nacional era basicamente de esquerda, anti-imperialista e anti-americana. A desarticulação disso por parte do regime ainda engatinhava.
Mas o autor afirma que essa produção se distanciara do povo com o golpe. A ditadura cassara logo de início todas as personagens que ligavam a elite intelectual com a massa popular. Isso afastou o pensamento cultural de esquerda da população, cada vez mais desmobilizada.
Essa intelectualidade de esquerda é criticada em algum lugar como se assemelhando às raparigas e seu amor pelos pobres: inteiramente condicional. É uma intelectualidade de bordel, que é pensada totalmente afastada do povo.
Clarabela é a personagem da Farsa que reflete essa situação. Uma construção de pensamento esquerdista (falsificado) que não possue nenhuma relação com o povo:

(falando sobre o marido, o rico Aderaldo Catação)
Vive catando migalhas,
como um... Não sei como diga!
Como um herói de Balzac!
Não encontro melhor definição:
Aderaldo, agora, é um herói de Balzac!
Você já leu Balzac, Simão?

SIMÃO

Não!

CLARABELA

E Joyce? E Proust? E Maiakoviski?

SIMÃO

Também não!

CLARABELA

Precisa ler! Principalmente Joyce e Maiakoviski,
para saber o que é uma forma concreta de vanguarda,
e um conteúdo de participação!


Parece que o povo e a intelectualidade que deseja pensar o mundo popular para o bem do povo habitam mundos distintos. Joaquim Simão (o povo) e Clarabela (os intelectuais) chegam a ser amantes, mas findam se separando.

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