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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Ontem eu ouvi na rua alguns senhores conversando. E um deles já vaticinava que Lula não ganharia mais nem uma eleição para síndico de prédio, pela decepção que tem causado aos seus 53 milhões de eleitores.
É óbvio que isso é uma precipitação sem tamanho. Dois meses de governo não podem determinar o futuro político de ninguém. Mas não deixo de estar preocupado.
Ano passado, uma onda vermelha de esperança invadiu o Brasil. Muitos votaram em Lula pelo clima de otimismo que movia sua campanha. Muitos sabiam que algo precisava mudar, mas eram incapazes de saber exatamente o quê.
Eu não gostaria de me incluir nesse grupo. Desde 1989, sou lulista de carteirinha. Meu pai ajudou a fundar o PT, e, mesmo que não tivéssemos a convivência que eu gostaria, isso marcou profundamente politicamente. Eu acreditei, acredito e sempre acreditarei no PT.
Mas estou preocupado. Não votei em Lula sem saber o que precisava mudar. Também acho que a mudança não pode ser radical. Porque romper com o estabelecido para cair no vazio iria ser um desastre total. Mas me preocupa que a ortodoxia econômica do governo não se afasta um passo do neoliberalismo e o governo não parece conhecer alternativas (a não ser a volta do planejamento desenvolvimentista da Cepal dos anos 50 e 60).
Aumento de juros, manutenção de política monitarista e corte de gastos públicos em áreas sociais para equilíbrio de contas são premissas neoliberais, desde Pinochet, Thatcher e Reagan. E foram os passos que a atual ekipeconômica gerou.
Acho que ainda é muito cedo. Há tempo para mudarmos o modelo nesse governo. Não sei, porém, se haverá tempo para que as vítimas excluídas desse modelo idolátrico sobrevivam. Se Deus e o Fome Zero ajudar. E se Lula não se constituir no maior estelionatário da história do Brasil, como falava o Vampiro Brasileiro, Serra.
Mas eu ainda creio em Lula, no PT e na mudança. Ainda sou lulista de carteirinha. Ainda acredito que o PT poderá ser o agente da revolução social preconizada por José Dirceu na cerimônia de sua posse.
Que o Deus da revolução nos ajude.

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