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Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
No Da obra alheia, a sacerdotisa do absurdo expôs ontem seu prazer na leitura de “A farsa da boa preguiça”, de Ariano Suassuna. Isso me fez lembrar duas história ouvidas dele, que jamais me esqueci.
A primeira foi na abertura da reunião da SBPC em Natal, no ano de 1998. Ele contou que estava orientando o trabalho de duas estudantes de antropologia. Elas foram fazer uma pesquisa em uma cidade do interior pernambucano. Lá, encontraram um pescador. O diálogo que se seguiu foi mais ou menos assim:
- Como é o nome do prefeito da cidade?, perguntaram as moças.
- Sei não senhora, respondeu o pescador.
- O senhor sabe quem é o governador do estado?
- Não...
- E o nome do presidente? O senhor sabe?
- Não é Getúlio Vargas?
- Mas o senhor é muito ignorante...
Indignado, o homem as levou ao seu barco de pesca;
- Me diga uma coisa: a senhora sabe o nome desse peixe aqui?, perguntou o pescador.
- Não, disse a jovem.
- E esse aqui? A senhora sabe?
- Não.
Então, sabiamente, o pescador concluiu:
- Eu prefiro as minhas ignorâncias do que a sua sabedoria.

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