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Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...
Isso me faz lembrar uma história familiar. Minha tia era secretária de Moacir de Góes, secretário municipal de educação em 1964, à época do golpe.
Como deve ter ficado claro, a prefeitura de Natal na época estava ocupada por políticos inovadores e esquerdistas. Quando veio o golpe, todos começaram a ser detidos pelo exército.
Minha tia, esperta, destruiu diversos documentos da secretaria que tinha em casa. Colocou no lixo, à porta da humilde casa de vila da minha família.
Naquela mesma noite, um jipe do EB descarregou um grupo de milicos naquela casinha. Eles foram recebidos pela minha avó:
- Pois não? O que vocês querem?
- A senhora é o que dessa casa?
- Eu sou a dona.
- Queremos revistar a sua casa.
E puseram a casa de pernas para o ar em busca de documentos que estavam logo ali, na calçada, no lixo. Leram os livros escolares de minha mãe e minha outra tia, rasgaram sacos de carvão.
Minha avó havia posto um saco de bananas pendurado na parede na sala, “para amadurecer logo”, como ela disse. Um sargento pegou no saco e perguntou o que havia ali. E minha avó, ousada:
- Banana. O senhor quer uma?
Pois é. Minha avó deu uma banana para os milicos poucos dias após o golpe. E viveu para contar a história.

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