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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Isso me faz lembrar uma história familiar. Minha tia era secretária de Moacir de Góes, secretário municipal de educação em 1964, à época do golpe.
Como deve ter ficado claro, a prefeitura de Natal na época estava ocupada por políticos inovadores e esquerdistas. Quando veio o golpe, todos começaram a ser detidos pelo exército.
Minha tia, esperta, destruiu diversos documentos da secretaria que tinha em casa. Colocou no lixo, à porta da humilde casa de vila da minha família.
Naquela mesma noite, um jipe do EB descarregou um grupo de milicos naquela casinha. Eles foram recebidos pela minha avó:
- Pois não? O que vocês querem?
- A senhora é o que dessa casa?
- Eu sou a dona.
- Queremos revistar a sua casa.
E puseram a casa de pernas para o ar em busca de documentos que estavam logo ali, na calçada, no lixo. Leram os livros escolares de minha mãe e minha outra tia, rasgaram sacos de carvão.
Minha avó havia posto um saco de bananas pendurado na parede na sala, “para amadurecer logo”, como ela disse. Um sargento pegou no saco e perguntou o que havia ali. E minha avó, ousada:
- Banana. O senhor quer uma?
Pois é. Minha avó deu uma banana para os milicos poucos dias após o golpe. E viveu para contar a história.

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