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Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...
Minha avó nasceu poucos meses após a Semana de Arte Moderna. Muito longe de São Paulo, em uma cidadezinha do interior do RN, Florânia. Aos 80 anos, caminhando para o 81º aniversário, ela surpreende qualquer um pela sua vitalidade. Todos se admiram com a idade que tem. Parece bem mais nova.
Eliana é sua filha caçula. Aos 51 anos está se preparando para embarcar para Nova York, a se encontrar com o namorado. Aliás, planeja morar lá. Ela admite que só vai porque recebeu o apoio de vovó. Elas duas são muito ligadas.
Ontem à tarde fiquei estarrecido.
Primeiro ouvi a voz de vovó chamando alguém. Em poucos instantes, ela, que estava dormindo, veio à sala onde estava assistindo tevê, perguntando o nome de sua filha pequena a quem ainda amamentava.
Sem ação, controlei o máximo que pude minha reação. Um sorriso nervoso surgiu nos meus lábios. “Vovó está ficando senil!”, pensei. “A senhora está falando sério?”, perguntei.
“Estou. Como é o nome da minha filha pequena que eu estava dando de mamar e não consigo lembrar”, e começou a chorar. Não porque tivesse acordado para o mundo real, mas por não se lembrar do nome da filha. Por pouco, não me desesperei.
Aos poucos trouxemo-la de volta a 29 de janeiro de 2003. Vovó confundiu sonho e realidade. Descreveu sua filha pequena (Eliana, por acaso) e que ela estava indo embora com um menino mal intencionado. E nos deu o sinal de alerta de que não está apoiando tanto a viagem da minha tia.

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