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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Minha avó nasceu poucos meses após a Semana de Arte Moderna. Muito longe de São Paulo, em uma cidadezinha do interior do RN, Florânia. Aos 80 anos, caminhando para o 81º aniversário, ela surpreende qualquer um pela sua vitalidade. Todos se admiram com a idade que tem. Parece bem mais nova.
Eliana é sua filha caçula. Aos 51 anos está se preparando para embarcar para Nova York, a se encontrar com o namorado. Aliás, planeja morar lá. Ela admite que só vai porque recebeu o apoio de vovó. Elas duas são muito ligadas.
Ontem à tarde fiquei estarrecido.
Primeiro ouvi a voz de vovó chamando alguém. Em poucos instantes, ela, que estava dormindo, veio à sala onde estava assistindo tevê, perguntando o nome de sua filha pequena a quem ainda amamentava.
Sem ação, controlei o máximo que pude minha reação. Um sorriso nervoso surgiu nos meus lábios. “Vovó está ficando senil!”, pensei. “A senhora está falando sério?”, perguntei.
“Estou. Como é o nome da minha filha pequena que eu estava dando de mamar e não consigo lembrar”, e começou a chorar. Não porque tivesse acordado para o mundo real, mas por não se lembrar do nome da filha. Por pouco, não me desesperei.
Aos poucos trouxemo-la de volta a 29 de janeiro de 2003. Vovó confundiu sonho e realidade. Descreveu sua filha pequena (Eliana, por acaso) e que ela estava indo embora com um menino mal intencionado. E nos deu o sinal de alerta de que não está apoiando tanto a viagem da minha tia.

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