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Meia noite de um três de maio

Olho no relógio e passam 25 minutos da meia noite. Já é 3 de maio. Há semanas tenho pensado sobre a morte. Pensado sobre a morte de minha amiga Asenate, da mãe de minha primeira namorada. Tenho pensado na morte que nos cerca quando tentam nos excluir e nos silenciar. O exílio é uma forma de morte simbólica, o ostracismo era a morte política que substituia uma execução brutal. Tenho pensado que muita gente queria ter coragem de matar mas não tem e opta por excluir. Tenho pensado que a exclusão coletiva é uma alternativa ao linchamento assim como o cancelamento. Tenho pensado que a morte é aquele limite absurdo com o qual nos deparamos e a partir do qual somos obrigados a uma decisão: ou elaboramos um projeto que nos dê sentido, ou nos deixamos sucumbir. Se a morte é inevitável e sem sentido por que não abreviar sua chegada? Por isso, a vida precisa ter sentido. Eu preciso dar sentido à vida. A morte nos cerca com sua força sutil, constante e inescapável. A morte nos empurra a entender t...
Em 2001 fui apresentado a uma figura apaixonante. Domenico Scandella, chamado Menocchio, moleiro natural de Montereale, uma pequena aldeia nas colinas do Friuli, Itália. Nasceu em 1532 e foi executado pela Inquisição em 1602.
O livro de Carlo Ginzburg (“O queijo e os vermes” – Companhia das Letras) foi dos mais difíceis de resenhar que já li. Mas foi dos que li com mais gosto. Especialmente por ir conhecendo um indivíduo representante de uma camada baixa da sociedade pré-moderna européia, capaz de pensamento autônomo, leitura independente (de livros e da vida) e sintetizador de parte da mitologia da Europa medieval.
O que mais me fascinava em Menocchio não eram suas idéias, mas sua capacidade de produzi-las, sua postura revolucionária. Em um contexto em que a Igreja Católica exercia monopólio pleno de poder e saber, Menocchio ousou pensar diferente, ousou desafiar e acusar esse monopólio.
Mas sua cosmogonia é também interessante: “No princípio este mundo não era nada, e [...] a água do mar foi batida como a espuma e se coagulou como queijo, do qual nasceu depois uma infinidade de vermes; e estes vermes se tornaram homens, dos quais o mais potente e sábio foi Deus”.
“O queijo e os vermes” vale a aventura de ser lido.

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