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Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...
Em 2001 fui apresentado a uma figura apaixonante. Domenico Scandella, chamado Menocchio, moleiro natural de Montereale, uma pequena aldeia nas colinas do Friuli, Itália. Nasceu em 1532 e foi executado pela Inquisição em 1602.
O livro de Carlo Ginzburg (“O queijo e os vermes” – Companhia das Letras) foi dos mais difíceis de resenhar que já li. Mas foi dos que li com mais gosto. Especialmente por ir conhecendo um indivíduo representante de uma camada baixa da sociedade pré-moderna européia, capaz de pensamento autônomo, leitura independente (de livros e da vida) e sintetizador de parte da mitologia da Europa medieval.
O que mais me fascinava em Menocchio não eram suas idéias, mas sua capacidade de produzi-las, sua postura revolucionária. Em um contexto em que a Igreja Católica exercia monopólio pleno de poder e saber, Menocchio ousou pensar diferente, ousou desafiar e acusar esse monopólio.
Mas sua cosmogonia é também interessante: “No princípio este mundo não era nada, e [...] a água do mar foi batida como a espuma e se coagulou como queijo, do qual nasceu depois uma infinidade de vermes; e estes vermes se tornaram homens, dos quais o mais potente e sábio foi Deus”.
“O queijo e os vermes” vale a aventura de ser lido.

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