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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

As coisas que aprendi com a minha Anne



O processo de educação não se restringe ao ambiente escolar e também não tem uma mão única. A gente aprende e ensina ao mesmo tempo. E quando em ambiente familiar, aprende a ser, sendo. Os filhos vão aprendendo a ser filhos, os pais vão aprendendo a ser pais. Todos erram, todos acertam, todos crescem, todos aprendem.
Entre lágrimas e risos, terminei uns dias atrás de assistir “Anne with an E” da Netflix. Uma série instigante que me fez o tempo todo pensar nas lições que podemos aprender no processo de ensinar. Por isso, eu queria falar sobre as coisas que aprendi com a minha Anne.
Aprendi com a minha Anne que o opressor tem mais poder sobre nós quando nós nos rendemos.  A força que que nos empurra para sermos subjugados gera uma força igual e oposta que se converte em energia de luta e em imaginação.
Por isso, também aprendi com a minha Anne a beleza da criatividade e da arte. Das invenções com papéis, os desenhos dos amigos, a fabulação das coisas lindas que nos cercam e não vemos,
A minha Anne me ensinou o poder da resiliência diante de tantas coisas que muitas vezes dá errado em nossas vidas. Ainda que seja vital mergulhar na dor e na angústia da frustração e do desespero, é possível encontrar o caminho de saída na invenção e na poesia à venda.
Aprendi com ela também como é linda a amizade sem preconceito. Mas aprendi também a importância de lutar contra os preconceitos. E isso começa com uma dose cavalar de empatia, destacadamente contra os excluídos, os proibidos, os ameaçados da sociedade.
Aprendi que a liberdade de expressão é um direito humano. Que a equidade de gênero é uma necessidade. Que o racismo e a homofobia são violências inaceitáveis.
Vi a minha Anne defender da violência um amigo exposto ao bullying homofóbico na escola.
Vi a minha Anne defender a liberdade de expressão contra aqueles que acham necessária a violência repressiva, fechando jornais e calando vozes. 
Vi a minha Anne sorrindo e chorando diversas vezes - e quando não reclamava do cabelo e das sardas, questionava suas próprias bochechas. 
Eu a vi resistir contra o bullying que sofreu, finalmente tentando fazer com que aquilo que lhe era dito não lhe afetasse. Mas afetava.
À essa altura, no entanto, nem sei mais onde termina Anne e onde ela se tornou só mais uma tela por onde eu vejo minha filha. Talvez Anne seja só uma metáfora que significa Alice.

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