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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

A força de uma não-notícia




Sábado acompanhava a eleição para a presidência do Senado Federal pela televisão. De repente, a urna é aberta e contam-se 82 votos para 81 senadores. Todos começam a discutir o que pode ser feito a partir daquilo.
Os três senadores do Rio Grande do Norte, Jean-Paul, Zenaide e Styvenson, eram parte do grupo de escrutinadores e, por isso, estavam o tempo todo por trás do presidente em exercício, José Maranhão. Até ali, pelo menos três propostas estavam sendo feitas. A primeira era anular os dois votos que foram depositados fora de um envelope e contar o resto. Outra era ler os votos a mais e, caso eles não alterassem o resultado da eleição, dar andamento. A terceira, anular tudo.
Foi quando Maranhão abriu os dois votos, mostrando-os também ao secretário da mesa.
Senadores falaram que também queriam ver.  Outros lembraram o sigilo do voto.
Jean-Paul sugeriu ao presidente que destruísse os votos para preservar o sigilo.  A frase foi captada no microfone da mesa.  Confesso que quando ouvi pensei que, caso recortassem somente a frase, parte da imprensa faria um escarcéu. No contexto era claro o que Jean Paulo propunha mas mudando o contexto poderia ser levado a entender que ele pedia a destruição de evidência.
Por fim, todos os votos foram picotados antes que uma nova votação tivesse lugar.
Essa é uma história e, talvez, justificasse se tornar uma notícia.
Mas o que entrou em questão foi a força de uma não-notícia.
O jornalista Gustavo Negreiros acusou, em post de seu blog, Jean-Paul de atuar como pombo-correio de Renan Calheiros no episódio.
Em seguida, a assessoria do senador petista enviou ao blog nota em que explica o que aconteceu e afirma, expressamente, que sugeriu ao senador José Maranhão que as cédulas fossem rasgadas, como todos ouviram.
Por fim, o jornalista publicou um trecho do ocorrido no sábado no Senado Federal.  O título do post é: A prova! Jean-Paul orienta senador a destruir a prova.  Aqui nasceu bem mais que uma fake news. Nasceu uma não-notícia. Jean-Paul em nenhum momento afirmou que não havia feito a sugestão de destruição das cédulas. Inclusive afirmou isso explicitamente em nota que escreveu e enviou ao jornalista - que a publicou.
O jornalista, por sua vez, publicou o vídeo do fato como prova de que o senador mentiu - ainda que o senador tenha dito e reiterado que fez feito aquilo que o vídeo confirma que ele fez. Eu sei, ficou confuso. Mas é que o próprio episódio é confuso de tão surreal.  Jean-Paul foi acusado de mentir por Gustavo Negreiros por dizer algo que o próprio Gustavo Negreiros disse ser verdade.
Gustavo ainda dispara, no texto, um recado a Jean-Paul: "Antes de chamar o Blog de mentiroso em nota, tenha ética e saiba se comportar!"
De um ponto de vista de uma análise do discurso há algumas coisas interessantes no episódio a serem vistas. Jean-Paul não mentiu e os dados concretos que Gustavo Negreiros publicou confirmam que ele não mentiu. Mas Gustavo enquadrou o episódio como mentira do senador. Muita gente só vai conseguir ler esse elemento no caso.
No post em que Negreiros publicou o vídeo com a fala de Jean-Paul, Ignácio Soares comenta:
Esse bandido Senador Jean provou que é xiita do PT. Vergonha para um estado além de pobre, sem dignidade política de um seu representante. Vergonha nacional.  
Quer dizer: o leitor não foi capaz de perceber que o vídeo confirmava que Jean-Paul não mentira porque sua leitura foi condicionada pela afirmação de Gustavo Negreiros de que o senador mentira.
Isso acontece porque o jornalista tem um compromisso político, discursivo e ideológico em seu blog - no campo oposto ao Partido dos Trabalhadores de Jean-Paul Prates. E vai reforçar discursos e enquadramentos que atraiam leitores ávidos por odiar o PT, ainda que fujam à verdade para isso.
Não é à toa que no post em que comenta o discurso da governadora Fátima Bezerra à Assembleia Legislativa ele tenha posto o título de A arte de não dizer nada.  Antes de publicar a íntegra do que falou a governadora, Negreiros comenta que ela "usou 5.203 palavras para não dizer nada".  Para a posição política e discursiva a que serve, qualquer coisa que Fátima tenha dito será desconsiderado como nada.  Pouco importa que Fátima tenha falado sobre a relação entre os três poderes, o rombo nas contas públicas do estado, a crítica a ausência da população na elaboração do orçamento público (por meio de ferramentas de orçamento participativo), entre muitos outros temas. É uma estratégica discursiva intencional.
Parafraseando Voloshínov, é o signo (a palavra) essa arena de luta política discursiva. Gustavo tem seu lado.

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