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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Distingue semper

Por Wilson Gomes

Feliciano e felicianistas, Malafaia e malafaistas não são "os evangélicos". Fundamentalistas religiosos não são "os religiosos", muito menos são "os cristãos" ou "o cristianismo". Homofóbicos que usam a expressão "a Bíblia condena" não são "a Bíblia". Bem que eles queriam. Não alimente os seus delírios de grandiosidade, coisa que você o faz quando resolve, reagindo aos abusos de homofóbicos religiosos, que os evangélicos, os cristãos, o cristianismo ou a Bíblia são uma forma maligna, conservadora, violadora da dignidade humana e dos direitos de minorias. Eles são uma facção do cristianismo, uma seita (um recorte, uma seção) do mundo evangélico, a mais feia e a mais triste, não lhes dê o poder de, sendo uma parte, poder falar em nome do todo. Felicianistas e malafaistas estão para o mundo evangélico como os hooligans estão para torcedores de futebol e os black-blocs para manifestações democráticas.

Não, não vou tentar lhes enganar que o cristianismo é amor, compreensão e bondade. É isso e também o seu contrário. O cristianismo é, foi e será o que os cristãos de uma determinada época e cultura conseguirem ser. Há cristãos dignos e santos e cristãos imprestáveis, há cristãos que vivem para a misericórdia, a compaixão e cristãos que encarnam a fúria moralista e não consideram a vida, o respeito ao outro e o amor ao próximo mais importantes do o que eles acham ser "a vida reta". Cristãos podem ser bons ou maus e encontrar no cristianismo a razão para uma e outra coisa. Faça distinções, preste atenção, não simplifique. Não perca a solidariedade dos bons, assimilando-os, ainda que apenas verbalmente, aos maus.

Tampouco vou tentar iludir ninguém dizendo que da Bíblia só se pode destilar o amor. Nós todos estudamos história na escola e aprendemos que das milhares de leituras possíveis da Bíblia - baseadas em Teologia ou no amadorismo da fé, "corrigidas" pelo Magistério ou orientadas por profetas e sacerdotes reais ou autodenominados, para o uso pessoal e íntimo do encontro da alma com Deus ou para tomar providências e interferir no mundo - foram derivadas as justificativas para as mais horrendas e sublimes das coisas. Mas dizer que a Bíblia causa homofobia é infinitamente menos verdadeiro do que dizer que a Bíblia causa a bondade de coração. É entregar aos homofóbicos a guardiania do texto sagrado de boa parte da humanidade e o direito de falar em nome da Fé. Eles adorariam ser postos nesta condição de intérpretes autorizados e ungidos da Sagrada Escritura, que é muito mais confortável do que a sua real condição de leitores teologicamente ignorantes, fundamentalistas rasteiros e fanatizados da Bíblia. Não os promova, não alimente as bestas.

Ninguém ganha disputas sem fazer distinções, ensinam os dominicanos. "Distingue semper", dizem. Ninguém vence a batalha pelos corações e mentes na esfera pública simplificando os seus adversários e fazendo-os maiores do que realmente são, ouso completar. Um bom dia, amigos.

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