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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Se os tucanos querem sangrar Dilma, a esquerda tem que defender sua agenda

Meu pai foi candidato a governador do RN, pelo PT, em 1982. Não lembro dessa eleição - tinha três anos.
Minha primeira eleição - aquela da qual me lembro - foi a de 89. Aos 10 anos, me esforcei pedindo voto para Lula.  Perdi e chorei.
Perdi também em 90, 92, 94, 96, 98 e 2000, até que venci a primeira eleição em 2002, nas ruas e nas urnas com Lula.
Depois venci em 2006, 2010 e 2014, mas perdi também em 2004, 2008 e 2012.
Perdi 10 vezes, venci 5 vezes. Nunca pedi nada parecido com impeachment pelo despeito de perder uma eleição.  Acho que sei perder. Faz parte do jogo.
Nossa aristocrática elite, que bate panelas e xinga de vagabunda a presidenta da República, não sabe perder eleições. Grita, despeitadamente, o #ForaDilma.
Em 2011 e 2012, eu publiquei muitos posts com a hashtag #ForaMicarla. Ali, tinhamos uma prefeita tão enrolada em esquemas de corrupção que alcançou 95% de reprovação popular e não terminou o mandato, afastada pela justiça.
Hoje, temos uma presidenta reeleita por 54 milhões de eleitores, com dois meses de governo, contra quem não existe nenhuma investigação. Querer tirá-la é birra de quem não aprendeu a perder eleições.
Por isso, também, não estou preocupado com o legítimo exercício de expressão de quem acha que pode ganhar no grito.  Estive nervoso na campanha, com a possibilidade de perder a eleição, agora não. Acabou a eleição.
Quem quiser arcar com o golpe que arque com suas consequências.
O impeachment só é viável se:
1. Houver o mínimo fato jurídico (que eventualmente poderia surgir, por exemplo, na CPI da Petrobras);
2. Ele tem de ser aprovado na Câmara, cheia de investigados pela Lava Jato e presidida por um deles;
3. O processo é aberto e pode durar 6 meses no Senado, que não seria, então, presidido pelo investigado Renan Calheiros, mas por Ricardo Lewandovsky;
4. Para Dilma ser deposta, 54 senadores teriam de aceitar.
Agora imagina o cenário social que ocorreria durante esse processo?
Organizações sindicais, movimentos sociais irião às ruas com força e organização que só eles têm. O PT não é o PRN, Dilma não é Collor.
Os dois lados sabem disso. O ambiente é político de olho no desgaste e na destruição da esquerda - tornar Dilma e o PT irrelevantes e, inclusive, o discurso da esquerda - até a esquerda de oposição.
Eles querem controlar a pauta e se valer do congresso conservador para governar de fato - sem precisar suplantar Dilma.  Assim como os republicanos ameaçam fazer controlando o Congresso nos dois anos finais de Obama.
Se o governo não se comunica bem - o que é uma crítica recorrente - são os partidos e os movimentos sociais nas ruas que precisam disputar a pauta, a agenda, a política pelos próximos anos.  O governo tem de reagir, sim, mas os partidos e movimentos sociais tem a sua parte a fazer.
E sssa parte não é defender o governo, mas lutar pela nossa pauta - a nossa luta é maior que nossos partidos: reforma política democrática, avanço na reforma agrária, direitos das minorias, reforma da mídia, defesa da Petrobras e do Pré-sal, etc.
Aí reside a força da importância dos eventos do dia 13, sexta-feira, em defesa da democracia e da Petrobras.
Essa análise que tracei acima é confirmada com as declarações de dois líderes da oposição.  O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse "que a saída de Dilma Rousseff não irá resolver a crise política por que passa o governo. 'Não adianta nada tirar a presidente', disse.
O "senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) – ex-candidato a vice na chapa de Aécio Neves– também disse ser contra o impeachment. O tucano afirmou que prefere ver a petista 'sangrar' nos próximos quatro anos, quando encerrará o seu segundo mandato.  'Não quero que ela saia, quero sangrar a Dilma, não quero que o Brasil seja presidido pelo Michel Temer (PMDB)', disse Nunes Ferreira. Ele é defensor dos protestos agendados para este domingo (15)".
Em que pese a fala de Aloysio parecer-se com algo dito pela mesma oposição em 2005 - será que a história se repete? -, o fato é que as declarações dos tucanos servem para confirmar as impressões relacionadas acima.
Por isso, às ruas no dia 13.

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