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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Ricardo Gondim: Lamentos, lágrimas e cinzas

Ezequiel, o profeta bíblico, comeu um livro repleto de lamentos, prantos e ais. Depois de encher a barriga, afirmou: Eu o comi, e na boca me era doce como mel. [3.3]. Como pode um livro de lamentos ser doce na boca de alguém? Muito estranho alguém gostar de prantear.
Ezequiel precedeu a fala de Jesus: Felizes – bem-aventurados – o que choram porque eles serão consolados. Os que choram conseguem não apenas aliviar as dores do coração; desafogam não só imperativos triunfais. É feliz quem pode expressar angústia sem o patrulhamento dos insensíveis. Alguém já disse que poeta só é poeta se sofrer. É possível dizer também: profeta só é profeta se aprende a lamentar.
Abracei, por anos, uma fé discursiva, triunfalista e racional. Fui treinado a esquecer o valor do lamento. Associei pranto à fraqueza. Achava que a mensagem do Evangelho transforma pessoas em imbatíveis.
Li o judeu Abraham Joshua Heschel e aprendi uma nova dimensão sobre o significado de ser íntimo de Deus. Heschel afirmou que os profetas não foram simples porta-vozes do divino. Eles eram pessoas chamadas para comungar do pathos de Deus — “pathos” é  palavra grega para sentimento; sufixo em sim-patia, por exemplo. Para Heschel, o profeta tem o privilégio – e o terrível ônus – de partilhar das emoções divinas. Assim, quando Jeremias chora e lamenta, as lágrimas não são propriamente suas. O profeta se compadece –  sente o que Deus sente. E por isso fala.
Paulo percebeu essa identidade profética em Filipenses [1.29]: … a vocês foi dado o privilégio de não apenas crer em Cristo, mas também de sofrer por ele.
Assim, desejo me tornar íntimo de Deus. Não anelo celebrar sua presença, somente, no que é bonito e louvável. Quero aprender a chorar, junto com ele, os horrores de um mundo adoecido e bárbaro.
Quero conhecer o coração de Deus para lamentar a sorte da África, dizimada pelo avanço da Aids. Saberei chorar a morte desnecessária de milhões de crianças que se amontoam em campos de refugiados, expulsas por guerras étnicas. Lamentarei a gula das nações ricas, tão preocupadas consigo mesmas enquanto saqueiam, por todo o Continente, ouro, diamante, petróleo. Sofrerei porque o descaso de Caim está na boca de meus contemporâneos: Sou eu responsável por meu irmão?
Quero conhecer o coração de Deus para lamentar o drama dos pequenos países latino-americanos, sem recursos naturais e sem condições de pagar as dívidas com agentes financeiros transnacionais. Lembrarei que toda a América Latina foi rapinada. Levaram daqui, ouro, prata, cobre, ferro, madeira e banana. Lamentarei não existir uma justiça retributiva para que essas pequenas nações sejam ressarcidas; a contínua sangria da riqueza latino-americana perpetua ciclos de miséria e violência.
Quero conhecer o coração de Deus para lamentar o que acontece em meu país. Os rios viram esgotos, as florestas somem e as praias perdem a virgindade branca, inundadas de lixo. Sentirei o coração apunhalado ao lembrar que o Brasil se tornou uma ameaça para a humanidade — a Amazônia devastada representa, talvez, o desequilíbrio final do planeta.
Quero conhecer melhor o coração de Deus para chorar as clínicas clandestinas de aborto, os cortiços onde jovens negociam barato o corpo, os moquifos onde mendigos se destroem com o crack e as favelas nas margens de córregos fétidos. Desejo compreender como tudo isso chega a Jesus : Da mesma forma, o Pai de vocês, que está nos céus, não quer que nenhum destes pequeninos se perca” [Mateus 18.14].
Quero conhecer melhor o coração de Deus para lamentar o tráfico de menores no sórdido mercado da pedofilia. Quero prantear o Nordeste, que se transforma em rota do turismo sexual. Será que consigo expressar tristeza por meu país se tornar conhecido pela violência? Me sinto constrangido de saber que o Consulado de vários outros países trata brasileiros como oportunistas, doidos para emigrar, mesmo subempregados.
Quero conhecer melhor o coração de Deus para lamentar que cristãos – católicos e evangélicos  - se alinham à geopolítica desastrada do Ocidente. Pranteio por terem apoiado a guerra do Iraque e por inviabilizarem qualquer diálogo com o Islã [triste, muçulmanos confundem cristãos com bombardeio de Drones].
Quero conhecer melhor o coração de Deus para lamentar a perda da credibilidade da religião. Preciso doer com os fracassos morais que se sucedem no clero, que espolia pobre, prega sermões irrelevantes e transforma a fé em mercadoria. Mais perto de Deus, digo que espiritualidade não tem nada a ver com a montanha de obviedades que sai dos púlpitos. Anseio saber me indignar com os discursos vazios, com as promessas irreais e a com banalização do sagrado.
Almejo ser íntimo de Deus, como o profeta Isaías, e poder dizer: Deus detesta festas religiosas e muitas orações; sem fome e sede  justiça, revolta contra a opressão e defesa de viúvas e órfãos, todo o culto dá náusea.
Sei que existe um tempo para tudo, inclusive o de celebrar. Hoje, porém, quero aprender a lamentar.
Soli Deo Gloria

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