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Destaques

Sobre cegos, castelos e a escrita de si numa manhã ruiva em Natal

Hoje a manhã de Natal ficou ruiva. A volta do Ação Leitura foi marcada pela presença de Nando Reis. Motivo mais que suficiente para que minha filha trocasse as aulas de química e física por uma aula sobre poesia, criação, leitura e literatura no ambiente de um cinema da cidade ruiva. Um dos temas mais importante da conversa mediada por Carlos Henrique Fialho, velho amigo dos tempos de adolescência, foi a característica autobiográfica das canções de Nando. Mesmo sendo fruto de labor profissional, mesmo não acreditando no passe de mágica inspirativo para a escrita de músicas, foi muito interessante perceber o quanto de biográfico tem naquela poesia toda. Outro tema recorrente foi Marisa Monte, mas por ser constrangedor, como brincou Nando, esse eu deixo de lado. Muitas músicas de Nando, ele explicou, foram escritas na sua luta contra a dependência química. Quando citou Os cegos do castelo (“Eu não quero mais mentir/Usar espinhos que só causam dor”), Nando falou do grau de consciência do ...

Nossa Insurreição da Consciência: “Ma Nêga” e o racismo

Por Andressa Morais
Na Carta Potiguar

O que faz de nós mulheres ainda hoje sermos tratadas de modo rebaixado, calunioso, interessado e violento? O que está tão mal explicado que nos faz pensar em transferir juízos de valor sobre os corpos não-frágeis, mas fragilizados por terceiros? O que nos torna violáveis? Há aqui um imperativo moral que está em cada um de nós, pois Eu sou o Outro e o Outro sou Eu. Sendo assim acendo uma faísca com as palavras do filósofo alemão Immanuel Kant: “a desumanização infligida a outrem destrói a humanidade em mim”. Como um silogismo a explicação kantiana traduz um pouco a relação social sobre a qual irei me debruçar daqui por diante no texto que segue em que a violência contra as mulheres, o machismo e o racismo voltam a nos interpelar.
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Vejamos atentamente o caso que se passa a nossa volta no Rio Grande do Norte. O artista mossoroense Artur Soares, músico e compositor, divulgou uma canção cujo título é “Ma Nêga” e tem repercutido entre nós (a letra: http://letras.mus.br/artur-soares/ma-nega/). O sucesso tem alcançado a boca do povo, pois nas redes sociais só se fala nisso (a favor ou contra o compositor). Na minha ‘timeline’ não aparece outro assunto (depois da política). Recebi mensagens com a polêmica, vi algumas discussões, li a nota do Coletivo Leila Diniz, acabo de ler uma entrevista com o próprio Artur a respeito do ocorrido, até aqui estava observando melhor o cenário para entender o que se passa e diante dos comentários do próprio músico, encontrei o motivo para apertar o gatilho e escrever este texto. Incomoda e muito presenciar (quando não, sofrer) eloquentes discussões a respeito de violências infligidas contra as mulheres negras ou sobre a população marginalizada de modo geral, os mais diversos grupos de pessoas que sofrem violência diariamente física e/ou simbólica.

Gostaria de tratá-la como um problema moral e dizer que a possibilidade de bem equacioná-la está potencialmente inscrita em nós mesmas/os. O esforço será o de preservar o espaço da razão, diante da afetividade, considerando importante mencionar a/o leitora/or de onde estou falando, o meu lugar no mundo, minha identidade de mulher, negra, nordestina e ativista de Direitos Humanos. Portanto, nenhuma palavra aqui está isenta da caluniosa neutralidade.

O jovem músico fez um esforço para demonstrar em sua produção audiovisual as mulheres como as protagonistas, as negras como as eleitas para uma homenagem e o cotidiano aparece de modo leve, expondo diversas realidades e mulheres. Mas, caberia a mim a interpretação da letra de sua canção? Não. Eu concedi o crédito da licença poética, ouvi e curti a baladinha. Considerando que se trata de uma expressão artística que terá se esforçado em imprimir outras marcas do simbólico sobre a mulher negra, há duas passagens importantes na letra da música, observem:

“Nêga, você vai gostar
Nêga, eu vou te prender
Na senzala iorubá

E o que eu ensinar
Você vai ter que aprender
Porque eu vou te maltratar

Pretinha”

É preciso ter em mente o significado histórico sobre três palavras “prender”, “senzala” e “maltratar”. A primeira no sentido de privar alguém de liberdade e forçar seu aprisionamento já nos leva à segunda, aquele sombrio lugar de alojamento dos escravos no Brasil até o século XIX, onde ocorriam maus- tratos, isto é, tratamento brutal e grosseiro seja por atos ou palavras. Além disso, problematizaria ainda o caráter machista das sentenças escritas e cantadas sempre em tom imperativo sobre o que “a nêga” deverá “fazer”, “sentir”, “aprender”, “querer” e “gostar”.

Nosso olhar precisa se deter principalmente na maneira como ocorreu a histórica formação brasileira de um enorme contingente de pessoas marginalizadas socialmente, carentes de recursos materiais e principalmente de reconhecimento social. Após o período da escravidão, negras e negros não tiveram condições mínimas e dignas de existência para almejar e alcançar a condição de cidadão, de gente, de pessoa, de ser humano. O ponto de partida para este significado é a abolição da escravatura em 1888 (Lei Áurea), onde as/os escravas/os foram abandonadas/os à própria sorte e a ausência de reconhecimento de sua identidade se perpetuou, reproduziu e excluiu esse contingente de subcidadãs/ãos brasileiras/os até os dias atuais.

Nós fomos jogadas/os à nossa própria sorte, as mulheres negras relegadas ao uso explorado de seu corpo como moeda sexual. Se para o homem negro o sistema capitalista minou sua liberdade econômica e moral, para as mulheres negras, não parou por aí, o pior ponto de partida foi tê-las lançado a exploração sexual como possibilidade de existência. Algo que deveria ficar mais claro nos livros de história, geografia e sociologia, é o passado de exploração e alienação dos corpos negros, que tem reproduzido estereótipos e estigmas sobre nós. Digo isso, pois os jovens rapazes são alienados por esta deseducação que se perpetua racista, machista e escravocrata sobre nós. E algumas moças que consentem, permitem e se deixam.

O inconsciente do músico o traiu em sua resposta, veja o comentário do jovem após a crítica e pedido de retratação emitido pelo Coletivo Leila Diniz:

“rsrsrsrsrsrs” [...] “lavagem de roupa que é bom, nada…”

Com isto, Arthur revelou para nós as categorias de pensamento que habitam sua mente e que estão assentadas, principalmente, sobre o machismo e o racismo. Portanto, já não poderia dar o crédito da licença poética. Mas, ele não está sozinho nessa, a cantora khrystal participa do videoclipe (oh céus! Que decepção).


O impensado social, aquilo que está internamente circulando em nossas cabeças, mas que no caso em questão, o filtro politicamente correto não o deixou falar diretamente, apareceu de outras maneiras na letra da canção, no momento introspectivo e de exercício íntimo de quem a escreveu e nos comentários da internet em tom jocoso e debochado.

“O seu prêmio? – O desprezo e uma carta de alforria quando tem gastas as forças e não pode mais ganhar subsistência” – (Marciel Pinheiro).

É preciso dizer mais alguma coisa: Nós não somos mais escravas! Para este tipo de pensamento machista e racista que habita o seu inconsciente, caro músico, nós movimentamos a NOSSA INSURREIÇÃO DA CONSCIÊNCIA.

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